Todo Dinheiro do Mundo, um sub-Kane interessante
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Todo Dinheiro do Mundo, um sub-Kane interessante

Muita gente vem se decepcionado com este filme. Eu não, porque nunca esperei com ansiedade nenhum Ridley Scott. E achei que Plummer dá uma dignidade interessante a Getty. Trata-o como uma subespécie de Charles Foster Kane, inclusive em seu amor às coisas e à acumulação.

Luiz Zanin Oricchio

08 Fevereiro 2018 | 12h51

Com o filme já pronto, Ridley Scott resolveu expurgar de Todo Dinheiro do Mundo o ator Kevin Spacey, acusado de assédio. Foi substituído por Christopher Plummer no papel do miliardário Jean Paul Getty. Resultado: quem vê o filme acha difícil imaginar outro ator que não Plummer fazendo o papel. A história é sobre o dinheiro e o vazio da riqueza buscada como fim em si. O neto de Getty é sequestrado em 1973 na Itália e o avô recusa-se a pagar o resgate. Bom thriller, com a mãe do rapaz (Michelle Williams) fazendo de tudo para salvar o filho. Plummer está indicado ao Oscar de coadjuvante.

Muita gente vem se decepcionado com este filme. Eu não, porque nunca esperei com ansiedade nenhum Ridley Scott. E achei que Plummer dá uma dignidade interessante a Getty. Trata-o como uma subespécie de Charles Foster Kane, inclusive em seu amor às coisas e à acumulação. O gênio de Welles imaginou aquele sinistro palácio com salas enormes atulhadas de tranqueiras. Em Scott isso se resume na declaração de Getty de que os objetos são o que são e, por isso, decepcionam menos que as pessoas. Em todo caso, o vazio da riqueza, per si, está lá e, para mim, é o ponto forte do filme.

Se há uma sequência constrangedora é o horripilante corte da orelha de Getty Jr. pelos sequestradores. Fizesse eu parte daquele clube de críticos associados à política dos autores, a chamaria de “obscena”. Enfim, é uma decisão do diretor mostrar ou sugerir. E, mostrando, mostrar tudo e no tempo real da coisa. Uma espécie de sadismo, sem dúvida. Com o espectador.

Fora isso, o filme tem qualidades. E deixa uma questão no ar: veremos um dia a versão primeira, com Kevin Spacey como Jean Paul Getty, ou ela será convenientemente destruída, se já não foi?