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Título festejado a prestações

Luiz Zanin Oricchio

23 Outubro 2007 | 17h57

Como se comemora título tão anunciado quanto este do São Paulo? A prestações, talvez, pois o clube, ou pelo menos a sua torcida, já vem celebrando desde que venceu no Maracanã o Botafogo, que era então (veja só o que é o futebol) um sério candidato ao título. Vem comemorando desde que conseguiu acumular gordura tão farta que não pode mais ser queimada pelos adversários. Festejou domingo, ao enterrar de vez a já remotíssima possibilidade de o Cruzeiro se converter em zebra. Deverá comemorar quando se tornar matematicamente campeão, o que pode acontecer já na próxima rodada, dependendo de uma combinação de resultados. Nesse caso, quando lhe serão entregues as faixas e a taça? No jogo seguinte ou apenas no último compromisso do campeonato? No fundo, é tudo questão de cerimonial, pois há muito tempo o São Paulo é de fato e de direito o campeão brasileiro de 2007, mesmo sendo o futebol “a little box of surprises”, como disse certo dia um grande jogador.

Esse tipo de comemoração que se arrasta no tempo é típico dos campeonatos por pontos corridos quando um time se destaca sobre os demais, como foi o caso do São Paulo este ano. Não se trata de botar a culpa no sistema. A culpa, se é que ela existe, é dos outros times que não se prepararam adequadamente e por isso estão comendo pó dos são-paulinos. Que devem se divertir muito vendo rivais de tradição brigando pelo segundo lugar, ou por uma vaguinha na Libertadores, que ele já conquistou faz tanto tempo.

E quem ficará com essas vagas, afinal? Palmeiras, Cruzeiro, Santos, Grêmio e agora Flamengo estão no páreo que, este sim, só será resolvido nas últimas rodadas, talvez apenas no final do campeonato. Aliás, a tal “caixinha de surpresas”, que é o maior lugar-comum futebolístico de todos os tempos, funcionou no caso do Flamengo. Quem diria que um time que vegetava à beira do descenso com Ney Franco poderia estar agora na boca da Libertadores sob o comando de Joel Santana? Um amigo carioca me mandou e-mail dizendo que já está providenciando passagem para Tóquio. Menos, menos. Mas que a reação do Flamengo é surpreendente, ninguém pode negar.

Não se sabe quem serão os classificados para a Libertadores, mas o que se pode dizer é que terão de se reforçar caso não queiram fazer papelão no torneio. Nenhum deles, do jeito que estão, com a óbvia exceção do São Paulo, tem condições de participar da Libertadores aspirando a título. Por isso vejo com certo ceticismo essa fissura de jogadores e dirigentes (e mesmo da torcida) pela tal vaga. Será que vale tanto esforço, apenas pela participação? Ou o que se deve é entrar no torneio em condições de ganhar o título, que é o que interessa?

A OUTRA FESTA

A outra comemoração que deu o que falar foi a festa dos jogadores da seleção após a vitória sobre o Equador. O fato de terem fechado uma boate e dali saído no final da manhã ganhou amplo destaque. Vazou pela imprensa que Dunga teria recebido instruções de Ricardo Teixeira para falar com os jogadores e pedir mais discrição na próxima vez. Mas já pensou o que aconteceria caso a festa se seguisse a uma derrota? Ou mesmo a um empate por 0 a 0? O mundo viria abaixo, pois ainda não conseguimos distinguir o que acontece dentro de campo do que se passa fora dele. Aliás, os dribles do Robinho provaram que excesso de seriedade nem dentro de campo funciona.

(Estadão, Esportes, Coluna Boleiros, 23/10/07)