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Morte no Funeral

Luiz Zanin Oricchio

08 Outubro 2007 | 09h29

Um encontro de família para o enterro do patriarca – eis aí a situação inicial para esta boa comédia de humor britânico Morte no Funeral, de Frank Oz, mesmo diretor de Será Que Ele É?.

É bom que o leitor saiba o que vai encontrar – não uma comédia rasgada, daquelas que puxam a gargalhada, mas um filme que busca aquele riso contido, sutil, mais inteligente porque mais controlado. Beneficia-se, claro, da atuação mais interiorizada do elenco inglês, com seu estilo de interpretação diferente do da comédia à americana, com a qual o público está mais habituado.

Os ingredientes são apimentados, como costuma acontecer nesse tipo de comédia. Ressurgem os velhos ressentimentos familiares, farpas são trocadas durante o velório, ajustes de conta se preparam. Mas, sobretudo, devem-se esperar por revelações surpreendentes e estas não se farão esperar. Há uma boa dose de surpresa no filme, em situações que se poderiam chamar de ‘surrealistas’ não fosse o abuso do termo e o fato de ele parecer um tanto politicamente incorreto, dadas as circunstâncias, como o espectador poderá conferir.

Nem tudo, porém, é humor inglês. Oz não se furta em apresentar algumas situações de franco pastelão, como se temesse que o excesso de sutileza poderia prejudicar o desempenho comercial do filme. Recai, então, naquilo que se espera mais de uma comédia banal. Mas logo volta à inspiração inicial e esses deslizes não chegam a comprometer.

É claro que filmes como esse têm seus desdobramentos mais sérios. Por exemplo, os irmãos rivais, da mesma forma como na obra comentada acima. Um mora na Inglaterra, pagou a cerimônia fúnebre e tem problemas em sua carreira. O outro vive em Nova York, é um escritor de sucesso, só viaja em primeira classe e acha-se melhor que todo o mundo, em particular, muito superior ao irmão e ao resto da família.

As peripécias que acontecem no funeral, portanto, têm também a função de colocar em contato e aproximar esses seres tão diferentes e fazê-los interagir. A mesma coisa acontece com os outros parentes: o velho intransigente, a moça complicada que quer apresentar o namorado à família, mas ele, por engano, toma um comprimido errado, e assim por diante. Com tantas variáveis, o interesse não cai nunca.

Outra qualidade de Morte no Funeral é seu bom ritmo. Nada histérico, deixa a história fluir com naturalidade, destacando aquele traço que é essencial no bom humor – o timing, na ausência do qual não existe a boa anedota.

E, como acontece com todo o filme que tem a morte por tema aparente, este também usa a indesejada das gentes para melhor falar da vida. Assim, é um velório sem qualquer morbidez este que aproxima diferentes para melhor afirmar que a convivência é possível. E, que em face do irremediável da morte, a única conclusão possível é que cada um tem de viver o tempo que lhe foi concedido da melhor maneira possível. Assim, de comédia corrosiva, Morte no Funeral acaba se transformando em filme de sentido humanista. Mesmo que correndo o risco de alguma pieguice em suas seqüências finais. Mas isso é detalhe, porque o fundamental já foi dito.