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Tensão na Argentina, vazio em Portugal

Luiz Zanin Oricchio

04 Junho 2007 | 00h02

FORTALEZA – Queria comentar com vocês os dois longas primeiros já apresentados no Cine Ceará – o argentino Chile 672, de Pablo Bardouil e Franco Verdoia, e o português Body Rice, de Hugo Vieira da Silva.

Ambos têm qualidades e problemas. Chile 672 é o endereço em Buenos Aires de um edifício de classe média baixa, microcosmo de uma Argentina ainda em crise, pouco adaptada à carência econômica das últimas décadas. Há quatro personagens principais na história e vários secundários. uma emigrante italiana cheia de sensualidade; um motorista que mantém relação pedófila com a criança que leva à escola; uma atriz de meia-idade que deseja voltar à profissão; uma mocinha reprimida, com sérios conflitos com sua sexualidade.

Há também a síndica moralista, que comanda a campanha para expulsar do condomínio a estrangeira de “má vida”. O filme começa como comédia e transforma-se tragédia, num tom que lembraria um Nelson Rodrigues portenho. É incisivo em seu recorte da mentalidade pequeno-burguesa, ao mostrar que quanto mais moralista se apresenta uma sociedade, mais carcomida parece estar de fato.

Mais interessante do ponto de vista formal, porém mais árduo para o espectador, é o português Body Rice, trabalho que de fronteira entre o documentário e a ficção. Fala de uma situação real – desde 1980, instituições alemãs enviam adolescentes problemáticos para um projeto de reintegração no Alentejo, ao sul de Portugal.

Body Rice é um trabalho de grande elaboração visual e sonora, aparentado, talvez, para quem gosta de comparações, ao de Juventude em Marcha, de Pedro Costa. Trata-se de um cinema táctil, que procura, nem tanto relatar uma história propriamente dita, mas criar uma atmosfera. E qual? A daqueles jovens desgarrados, ocupados em raves, baladas, sexo e consumo de drogas.

A câmera, às vezes parada sobre os personagens, outra em lentos planos-seqüência, a fotografia fria; o trabalho não apenas com a trilha sonora, mas sobretudo com os ruídos. Essa construção cria uma atmosfera sufocante, e muito envolvente, embora exigente para com o espectador. Mas é uma maneira muito original como a forma do filme enfrenta e conforma o seu conteúdo. Original e bem trabalhada.

Acabei de chegar do cinema agora, onde vi mais dois longas que depois comento com mais detalhes: o brasileiro Querô, de Carlos Cortez, e o cubano La Edad de la Peseta, de Pavel Giroud. Ambos foram bem recebidos pelo público, mais o brasileiro que o cubano, diga-se. E nem poderia ser diferente. Querô tem uma força que vem de Plínio Marcos, com seus personagens malditos e uma visão radical do relacionamento entre o marginal e a sociedade. Já tinha visto em Brasília. Gostei de rever.