Suburbia: uma entrevista com Luiz Fernando Carvalho
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Suburbia: uma entrevista com Luiz Fernando Carvalho

Luiz Zanin Oricchio

03 Novembro 2012 | 19h12

 

Uma garota pobre do interior foge de casa e vai tentar a sorte no Rio de Janeiro. Este, o ponto de partida de Suburbia, minissérie de Luiz Fernando Carvalho, que a Globo começa a apresentar na quinta-feira.

Conceição (Débora Nascimento e depois Erika Januza) vive com a família no interior de Minas e, depois de perder o irmão numa explosão da carvoaria, decide fugir de casa e ir para o Rio. É um peixinho fora d’água e, até decodificar as manhas da metrópole, sofrerá uma série de percalços, inclusive a prisão injusta.

Nessa série, o público encontrará muito do estilo de Luiz Fernando Carvalho, o cineasta festejado de Lavoura Arcaica e responsável por algumas das minisséries mais autorais da TV brasileira como Os Maias, Hoje É Dia de Maria, Capitu e A Pedra do Reino. Apuro visual, técnica refinada nos movimentos de câmera, etc. Mas notará, também, uma pegada realista e documental que não se via em suas obras anteriores.

Encontrará, também, um universo temático um tanto diferente dos habituais de Luiz Fernando Carvalho. Seu leque de interesse tem a cultura brasileira como ponto comum. Não por acaso, a grande maioria de sua obra é inspirada em autores famosos como Machado de Assis, Raduan Nassar e Ariano Suassuna. Em Suburbia, a parceria é com um autor contemporâneo, Paulo Lins, o mesmo de Cidade de Deus.

Paulo Lins, autor do romance que serviu de ponto de partida ao filme homônimo de Fernando Meirelles, um dos grandes sucessos do cinema brasileiro contemporâneo, é homem com vivência das favelas e da zona norte carioca. Local onde boa parte da história de Suburbia se desenrola. Além disso, a trama se inspira em uma vivência pessoal de Luiz Fernando Carvalho, como ele explica na entrevista exclusiva concedida ao Estado.

1)    Primeiro, gostaria de te perguntar sobre a formação do elenco. Aparentemente, você quis trabalhar com atores e atrizes menos conhecidos do público de TV. Como chegou a eles e por que fez essa opção?

As minhas anotações que deram origem ao seriado não eram ficção, vinham da realidade. Explico melhor: Betânia era uma mãe preta que tive por mais de 25 anos. Começou a trabalhar aqui em casa como faxineira, mas logo se tornou fundamental na minha vida, pela carga de afeto que nutríamos um pelo outro. Negra, analfabeta, mas cheia de vida e inteligência, vez por outra rememorava seu passado, sua trajetória de vida, fazendo isso com muita  riqueza de detalhes, enquanto preparava meu almoço ou arrumava a casa. Eu ali, diante de tantas memórias fascinantes, um dia comecei a anota-las sem ter a menor noção do que um dia faria com aquilo tudo. Essa premissa em forma de documento me norteou em termos de linguagem narrativa. Achei por bem evitar todo e qualquer artifício que tornasse aquele depoimento original alegórico, falso. Procurei me aproximar do registro documental, de uma narrativa e de uma câmera mais jornalística, dispensando, radicalmente, alguns  acessórios de filmagem, todo aquele aparato técnico que a ficção oficial se apropria, como gruas, travellings, lentes especiais, etc. O mesmo foi buscado em relação à linguagem do texto e à escalação do elenco. A partir do momento que encontrei minha Conceição, acabei armando um quebra-cabeças comigo mesmo, onde foi impossível continuar a pensar a escalação das outras personagens sem a ideia dos “não atores” ou atores desconhecidos.

 

2)    Depois, gostaria que comentasse um dado da história, propriamente: a saída da menina Conceição do interior para o Rio de Janeiro. O que te atraiu nessa trama? O desejo de registrar uma realidade que é a de boa parte da população pobre brasileira?

 

Suburbia é um painel muito simples, mas ao mesmo tempo apresenta reflexões que me parecem abandonadas da grande mídia. Através de uma aproximação inspirada nas imagens de fotógrafos como o Walter Firmo, chegamos à uma família negra do subúrbio carioca. Não abordamos a miséria. A miséria está permeando algumas situações, mas não é o tema principal, nem mesmo a violência. A violência moral está muito mais perceptível e latente que os tiros de revolver. Suburbia poderia ser percebida  também como uma fábula social, da eterna luta entre opressores e oprimidos. Em como resistir à este mundo repleto de desigualdades sem perder a pureza e os sonhos.

 

3)    Gostei bastante, também, da maneira como o subúrbio é retratado em Suburbia, com uma visão bastante interessante da Zona Norte, com suas festas regadas a música e a cerveja, a sensualidade, etc. Antes, do Rio, só víamos a Zona Sul. Agora o subúrbio está na moda, vide a recém-encerrada novela Avenida Brasil, com o bairro imaginário do Divino, e que tanto sucesso fez. Subúrbia entra nessa vertente de valorização de outras faces do Rio e do Brasil?

Suburbia é uma ideia antiga. Faz mais de dez anos que penso no universo. Na verdade estava trabalhando sobre um outro texto, quando me foi pedido um projeto para entrar no ar ainda este ano. Abri a gaveta e me deparei com as anotações de Betânia. Em relação à novela, não devemos comparar. São histórias e olhares diferentes, são segmentos diferentes. Sim, no fundo, talvez se complementem. Você poderá até se perguntar onde foi parar aquele universo de Suburbia, e quem sabe encontrará algumas respostas em Avenida Brasil. Mas Suburbia é outra coisa, é um universo muito particular, trata-se de uma família de negros, onde a memória ainda tem um refúgio. Apesar de todas as contradições já presentes naquela década, o subúrbio é como um espaço congelado no tempo, onde as coisas parecem ter uma certa perenidade. A tradição ainda está em seus moradores, em suas atitudes, em seus códigos de conduta, em seu poder único de conviver em meio às diferenças.

 

4)    Outro aspecto que gostaria que você comentasse seria do estilo empregado, com muito movimento de câmera, e uma montagem talvez pouco usual na televisão, embora de tom talvez jornalístico, com câmera na mão. Como você chegou a essa concepção visual para contar a história de Subúrbia?

 

Aqui foi fundamental a mão sensível e rigorosa de meu montador, Marcio Hashimoto, que está comigo em todos os meus trabalhos desde A Pedra do Reino, assim como muitos da equipe, mas aqui a edição de Suburbia se torna a matriz fundadora da linguagem, não é o texto ou a luz. Por outro lado, esta é uma história passada entre a casa da família e a rua. As locações são praticamente personagens na história. Não consigo imaginar, por exemplo, a casa da família, uma casa de quintal, horta, passarinhos e sol na varanda, com uma força lírica tão grande, sendo construída no ambiente protegido de uma cidade cenográfica. Quis me aventurar pelas quadras de bailes funk, pelas comunidades com suas casas sem reboco. Foi fundamental para que elenco, luz, cenário, figurino, enfim, tudo respirasse livremente. Assim não haveria solavancos: asfalto era asfalto, concreto era concreto, rua era rua mesmo! Não há nada mais belo e brutal que a realidade, era o que repetia todos os dias para a equipe.

 

5)    De qualquer forma, pelo que vi, me pareceu haver uma preocupação mais realística e documental do que em seus trabalhos anteriores. Concorda? Se sim, qual a razão dessa opção?

 

Uma certa dose de autocrítica. Um desejo de virar a página. Nos últimos dez anos trabalhei muito próximo de um diálogo com as convenções da literatura, do teatro, do circo e da ópera. Todo este percurso que eu chamaria de clássico foi muito importante, estruturador até, mas agora eu não queria teorizar nada, estava exausto e incrédulo em relação à tudo isso, eu queria apenas abrir o coração e ver.

 

6)    A personagem de Conceição é definida como a de alguém que sai do interior e vai para a cidade grande tentar a sorte. Adapta-se, mas, ao mesmo tempo, conserva valores aprendidos na infância. Seria uma espécie de metáfora do Brasil em sua modernização acelerada e nem sempre muito equilibrada?

 

Sempre senti Conceição como uma metáfora do povo brasileiro, para o bem ou para o mal.

 

 

7)      Como foi a sua colaboração com Paulo Lins para o roteiro? Você o conheceu e resolveu trabalhar com ele por causa de Cidade de Deus, o livro depois transformado em filme por Fernando Meirelles e que tem grande importância na história recente do cinema brasileiro?

 

Houve uma convergência muito grande entre nós. Não o conhecia, apenas tinha lido o seu primeiro livro e gostado. Mas a história de Suburbia é uma outra coisa, não se passa em favela. Sei que depois escreveu vários roteiros, mas não tive a oportunidade de acompanhar. Enfim, o fundamental para mim era ser ele um excelente escritor, e depois o fato de ser negro, alguém que conheceria a cultura por dentro, só assim poderia me ajudar a desenvolver aquele universo, onde a cultura negra e carioca é o traço principal da história. Por outro lado, buscava um escritor e não um roteirista. Sua sensibilidade de escritor, manteria a dramaturgia no âmbito de uma fábula “irracial”. Fui logo mostrando as minhas anotações, que ele se identificou de imediato, encontrando pontos em comum entre a história de sua família, fazendo com que os hiatos que haviam nas minhas anotações fossem preenchidos de forma certeira. Daí em diante pedi que não partíssemos direto para a forma de um roteiro, que passássemos primeiro pelo desenvolvimento da história em forma de prosa, como se fosse um livro – era por isso que fiz questão que fosse um escritor. E só depois de concluída a prosa é que então a adaptaríamos. Foi o que fizemos. Ele desenvolvia o capítulo, me passava, eu escrevia mais um tanto, dando a forma final. Neste trabalho tivemos a colaboração luxuosa da Carla Madeira, minha assistente, que pela primeira vez colaborou no texto.

 

 

 

8)    Como você coloca Suburbia no contexto da sua obra para TV, com Os Maias, Hoje é Dia de Maria, Capitu, A Pedra do Reino e outros? Vê nele uma ruptura ou uma continuidade?

 

Sinto que há nesta ruptura uma continuação. Continuar é muito importante.

 

 

9)    Por fim, algum projeto em andamento para o cinema?

 

Sim, estou sendo perseguido por uma ideia que não me larga faz muitos anos, desde a montagem do Lavoura, mas agora estou terminando de colocar no papel.

 

 

10)          E para a TV, alguma nova ideia no horizonte?

Existem alguns, cada qual em um ponto de produção, mas os mais adiantados são: Dois Irmãos, do Milton Hatoum e A Aldeia, do Dostoiévski. Fora estes, espero terminar Suburbia e sair ao encontro do Benedito Ruy Barbosa, com quem divido o sonho de realizar algo em breve.