‘Soundtrack’ e o vazio
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‘Soundtrack’ e o vazio

Luiz Zanin Oricchio

06 Julho 2017 | 09h56

Soundtrack é uma produção brasileira com pinta de internacional. A direção é “assinada” por 300 ml. Como?! Num esforço de reportagem, apuramos que, por trás da sigla 300 ml, escondem-se dois jovens diretores cariocas, vindos da publicidade. Qual a razão disso? Não se sabe. Mas pode-se especular que um pouco de mistério apenas aguça a curiosidade do distinto público e pode ser boa tática de marketing. Destacar-se no contemporâneo oceano de lançamentos é a primeira preocupação de quem deseja atingir o mercado.

Enfim, passemos ao filme. Selton Mello é Cris, artista que busca condições extremas para um projeto de exposição. Este (o projeto) parece dos mais estranhos, mas toda originalidade é estranha, em seu princípio. Envolve tirar selfies na paisagem polar enquanto ouve músicas de uma playlist muito especial.

Na estação ártica para a qual se desloca, para lá passar 12 dias, Cris convive com quatro outros personagens. Há um especialista britânico em aquecimento global, Mark (Ralph Ineson), um biólogo chinês, Huang (Thomas Chaanhing), um pesquisador dinamarquês, Rafnar (Lukas Loughran) e o botânico brasileiro Cao (Seu Jorge). O idioma é o inglês, a não ser quando os dois brasileiros conversam entre si, em português. Faz sentido.


Deve-se dizer que a direção, seja lá de quem for, sabe administrar o “clima” da situação que se propõe explorar. É algo um tanto paradoxal, pois há a intimidade na estação, isolada do frio externo. Ao mesmo, tempo, lá fora, há a imensidão dos espaços vazios, o branco do gelo, o imenso céu estrelado. Ao mesmo tempo, um silêncio quebrado apenas pelo vento e pelo ruído soturno de um navio quebra-gelo, que avança ao longe, mas parecendo estar muito próximo. Tudo parece propício para certa melancolia que, como se sabe, é amiga das meditações mais profundas. Todos esses efeitos são produzidos em estúdio, o que é um mérito do artifício.

Nas relações que se constroem entre os homens da “estação” há espaço para a nostalgia pela vida que se deixou nos países de origem, recordações de sentimentos ternos ou de fatos dramáticos. Espaço reduzido também para um pouco de humor que, em geral, vem de Seu Jorge, com aquele carisma na tela que faz lembrar seu personagem em Cidade de Deus. Já Selton exibe uma interpretação cool, puxada para a introspecção.

Não se pode dizer que faltem bons momentos a Soundtrack. O conjunto é que não funciona lá muito bem. Fica-se à espreita de que alguma linha narrativa se apresente de maneira mais clara e, nada. Há um “não-acontecer” predominante na estrutura do filme, quebrado aqui e ali por algum incidente na estação, mas nada que indique algum propósito narrativo mais bem pensado.

Desse modo, o filme atravessa seu espaço-tempo mantendo nosso interesse, mas sem convencer de fato. Termina por produzir uma sensação de incompletude, ou, pelo menos, foi o que me pareceu. Outros poderão ter ideia diferente. Mas, a meu ver, não se trata daquele tipo de incompletude que deixa a narrativa aberta para que o espectador melhor a refaça em seu imaginário. Em Soundtrack parece a incompletude resultante da falta de um roteiro mais bem estruturado e com algum propósito mais definido.

Antes de fazer os filmes é preciso pensá-los. O que dizia Leonardo (o Da Vinci) da pintura, podemos falar também do cinema: “è cosa mentale”.

 

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