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Somos todos bairristas assumidos?

Luiz Zanin Oricchio

06 Junho 2007 | 09h58

Amigos, minha coluna de futebol no Esportes do Estadão de ontem:

Estou passando uns dias em Fortaleza e leio os jornais locais. Estão lá, na coluna de Alan Neto, do jornal O Povo, palavras que peço licença para transcrever: “Qual é a competição da qual participam Fortaleza e Ceará? Resposta: Segunda Divisão. Qual é o campeonato que ao futebol cearense mais interessa atualmente? Resposta: Segunda Divisão. Se é assim, fácil deduzir que é para ela que todas as minhas atenções estão voltadas. O Brasileirão fica, desta maneira, relegado a segundo plano. Por acaso, Ceará e Fortaleza estão lá?”.

Não tenho o prazer de conhecer o colunista, que se diz bairrista assumido. Concordo com ele. Pelo menos em matéria de futebol, somos todos bairristas, assumidos ou não. E, se não somos assumidos, somos enrustidos, porque bem deveríamos sair do armário e confessar que, neste mundo global da bola, o que nos interessa mesmo é o que se passa no fundo do nosso quintal. Desde, é evidente, que nos interessemos pelo nosso quintal, como acontece aqui em Fortaleza, cidade que ama seus times de futebol a ponto de chamar o embate entre os dois de “clássico-rei”. Ele acontece nesta sexta e, se puder, não vou deixar de comparecer ao Castelão. Deve ser um jogaço e não se fala em outra coisa na cidade.

Claro, podemos ter até interesse teórico no que acontece nos campeonatos europeus, podemos assistir e até achar graça na aura hollywoodiana das ligas, da Copa dos Campeões e da Eurocopa, torneios que me fazem sempre lembrar, pelo tom grandiloqüente, as cerimônias de entrega do Oscar. Só faltam as mulheres com aqueles vestidos improváveis. Podemos assistir a tudo isso, mas o nosso coração está mesmo lá? Obviamente não. Embora parte da mídia insista em nos enfiar goela abaixo (por razões comerciais, é claro) toda aquela parafernália de luxo, pompa e circunstância, ela simplesmente não nos diz respeito. Não nos toca, não nos emociona, não passa pela prova dos noves da libido. São imagens de outro planeta, de um universo paralelo.

Assim, para quem é de São Paulo e do Rio Grande do Sul não existe nada no mundo da bola mais importante do que o jogo da volta entre Santos e Grêmio, hoje na Vila Belmiro. Interessa apenas aos torcedores desses dois clubes? Que nada: palmeirenses, corintianos e são-paulinos são gremistas desde pequenininhos e sabem de cor o hino composto pelo grande Lupicínio Rodrigues: “Até a pé nós iremos, etc.” Por outro lado, o Santos ganha o reforço espiritual da torcida colorada que, mentalmente, deve entoar, lá no Sul, o Leão do Mar, hino não-oficial do Peixe, adotado pela galera.

Ganhe quem ganhar, acho que será outro jogaço, daqueles capazes de substituir teste ergométrico como avaliação cardiológica. O Grêmio sai com uma senhora vantagem, mas não conheço um único torcedor do Santos que considere a virada impossível. O que dizer antes desse jogo? Nada, a não ser que pode se transformar num daqueles clássicos brasileiros inesquecíveis, para entrar nas antologias das rivalidades regionais.

E o mesmo se pode falar de Figueirense e Fluminense, que disputam a Copa do Brasil em Florianópolis. Acho que o Figueira nunca contou com torcida tão grande na vida, pois toda a galera flamenguista estará com ele, somada aos botafoguenses e vascaínos. E a turma do Avaí nunca foi tão pó-de-arroz na vida.

Essas disputas regionais acirradas nos devolvem o nosso rosto e amenizam, ainda que parcialmente, a pasteurização de um mundo regido quase que exclusivamente pelo poder da grana. São uma espécie de vacina contra a macdonaldização do futebol.

Ah, e por falar nisso, ontem à tarde houve amistoso da seleção “brasileira”.