Sniper Americano – o ponto de vista da bala
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Sniper Americano – o ponto de vista da bala

Luiz Zanin Oricchio

19 Fevereiro 2015 | 19h49

Bradley Cooper como o atirador de elite Chris Kyle

Bradley Cooper como o atirador de elite Chris Kyle

 

A meu ver, todo o debate sobre Sniper Americano gira em torno de uma falsa questão: o filme expressa a visão de Chris Kyle ou a de Clint Eastwood? Quem é reaça? Clint ou Kyle? Ou nenhum deles? Vamos por partes para depois regressarmos à “falsa” questão.

Primeiro, para lembrar que o filme é baseado na autobiografia do próprio Kyle – The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S. Military History. Como afirma o título, Kyle é um matador. Diz-se responsável por 255 mortes no Iraque, das quais 160 confirmadas pelo Pentágono.

Vivido por Bradley Cooper, Kyle decide alistar-se depois de ver na TV as imagens das Torres Gêmeas caindo no 11 de setembro de 2001. Resolve engajar-se na luta contra o “Eixo do Mal”, segundo as palavras de Bush, filho. Daí que, em toda sua passagem pelo Iraque, Kyle irá referir-se aos inimigos como “selvagens”. Aquilo não é propriamente gente, mas seres inferiores a serem abatidos. Há outra cena interessante. Kyle, de volta aos Estados Unidos, começa a apresentar problemas psicológicos. O psiquiatra do exército, que o atende, diz compreendê-lo. Já viu muita gente apresentar sintomas estranhos depois de matar pessoas na guerra. Kyle responde, de modo sereno: “O Sr. não está entendendo, o que eu sinto não é culpa por ter matado, é culpa por não ter podido ajudar ainda mais meus companheiros”. Leia-se: matando oponentes, de cima do telhado, para que pudessem avançar ser serem ameaçados.

De modo que esta é a visão dominante, o, por assim dizer, ethos do filme. Os Estados Unidos são o maior país do mundo e tudo deve ser feito para protegê-lo. É dever de um patriota. Não existe qualquer sombra de dúvida, nenhum questionamento sobre se esse país tão grande tem o direito de invadir o país dos outros. Mesmo, convém recordar, sem a autorização da ONU. Nada disso entra em consideração. Duvidar é coisa de gente fraca, de traidores, talvez de intelectuais pouco másculos. Gente saudável, texana e de boa formação, como Kyle, não perde tempo com essas questões. Protege os seus, defende sua pátria. Mata selvagens.

Daí essa infância e juventude ser reconstruída a partir de um flashback. O uso do recurso não é neutro. Nunca é. Kyle está sob um telhado em Bagdá e tem sob sua mira telescópica um garoto e sua mãe. Ele suspeita que o menino esteja carregando uma bomba quando se dirige a um comboio de soldados americanos estacionado na esquina. Precisa tomar uma decisão. Busca, pelo rádio, apoio da base e lhe respondem – “você conhece as regras, tem de decidir sozinho e tem autonomia”.

A partir de então, começa o flashback, voltando à infância texana de Kyle quando, sob orientação do pai, aprende a usar um rifle e a caçar.  Aprende a matar. E a primeira morte tem valor de um rito de iniciação. Há toda uma cultura armamentista aí – caça, morte, rodeios, pátria, competição. O pai de Kyle, dono de estância, diz à mesa que não cria perdedores em sua casa. Explica à família que existem lobos e cordeiros. E também cães pastores, cujo destino é proteger o rebanho da ação dos lobos. Kyle, por seu talento de atirador, será um cão pastor. Não existe nada a lamentar quando a isso e nem a se arrepender. É um destino. Nobre.

Em sua estrutura, Sniper Americano é um filme em três tempos não necessariamente cronológico – a formação e ambiente do personagem; a guerra; a volta à casa, com seus problemas e o desfecho improvável e inesperado. Essas três facetas colam-se com a perfeição habitual de Clint, numa direção sóbria, atenta apenas ao essencial, sem qualquer exibicionismo, exceto, talvez, na cena em que Kyle acerta um sniper inimigo à grande distância e a câmera, artificiosamente, acompanha a bala saindo do rifle até atingir seu alvo. Uma concessão ao espetáculo da violência, mas que banaliza demais a sequência. Suspeito que seja ignorada por admiradores sistemáticos de Clint. Ou elogiada. Fosse outro cineasta, a sequência talvez fosse tachada de “obscena”. Como é Clint…

De modo que a questão inicial se revela falsa por um simples fato: todo filme baseado na vida de uma pessoa, ou de um fato histórico, não passa de uma reinterpretação dessa vida ou fato pelos olhos do diretor (responsável final pelo que está na tela). Sniper Americano é a vida de Chris Kyle vista pela ótica de Clint Eastwood. Ele é quem escolhe que pontos mais interessantes destacar da autobiografia e como esta será colocada em imagens. Como disse, não é neutra a maneira como o flashback volta aos anos de formação de Kyle justo no momento em que ele decide se irá atirar no garoto ou não. Aliás, há outra cena, que “rima” com esta primeira, quando outro menino toma um rifle e ameaça disparar contra os soldados norte-americanos. Ouvimos a voz em off de Kyle: “Vamos, deixe a arma cair, não faça isso”. Ele não é mau. Não deseja matar o menino. A não ser que seja obrigado, claro.

A história oscila entre as cenas de guerra e as cenas domésticas. Kyle com sua mulher (Sienna Miller, ótima) e filhos. O amante fogoso cede vez ao guerreiro acuado em casa, com os olhos engazeados na TV, sob o tédio doméstico. A adrenalina da guerra é viciante. E a defesa da pátria pesa sobre os ombros de Kyle. Como um preço a pagar. Mas o homem não fez o seu dever? Nesses momentos, é como se o filme dissesse que o fardo patriótico é mal recompensado pela pátria, um lamento digno de Kyle, mas também de Clint, que serviu ao exército na época da Guerra da Coreia. Não foi para o front, pois fora ferido em um acidente de avião. Em todo caso, há, aqui, uma óbvia simpatia entre companheiros, eu diria, entre irmãos de armas, aquele entendimento íntimo sobre quem já esteve na linha de fogo e sabe que é inútil esperar por gratidão ou mesmo compreensão dos civis. É a fraternidade militar que os une e dá a liga e o sentido a essa vida de Chris Kyle, vista e reconstruída pela visão de Clint. Há afinidade entre os dois. Kyle sabia disso perfeitamente. Ao lançar sua autobiografia disse que Clint seria o único capaz de filmá-la.

Não há, portanto, por que se iludir com Clint Estwood, este velho guerreiro patriota. Ele mesmo contribuiu para esse engano com filmes de cunho tão humanista quanto Gran Torino ou Cartas de Iwo Jima. Em Sniper Americano, são antigas convicções republicanas que voltam ao seu lugar devido, como um rio sempre retorna ao leito. Não é preciso ler entrevistas para saber disso. Está tudo no filme.