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Será que ninguém reage? Parte 2

Luiz Zanin Oricchio

20 Junho 2007 | 13h44

O post sobre a mega-ocupação do mercado pelos blockbusters deu boa discussão. E com ótimo nível, sem idiotas ou provocadores gratuitos. Bom nível me parece o fundamento de um blog. Quando comecei a blogar, o chefão aqui dos blogs disse para não me preocupar com a quantidade de comentários, mas com a qualidade deles. É o que procuro ter em mente.

Dito isso, devo confessar que discordo da maioria dos comentários postados, que defendem o princípio da livre concorrência como dogma de fé, sem atentar para o fato de que o mercado cinematográfico é muito cartelizado. As pessoas parecem ter medo de mais regulamentações, se esquecendo de que, sem um mínimo de regulamentação, a vida social, que inclui o comércio, simplesmente não funciona. Os próprios templos do liberalismo são muito seletivos em relação a importações e os Estados Unidos impõem sobretaxas sobre alguns produtos brasileiros – justamente para proteger o mercado deles. Então, uma coisa é pregar o liberalismo fundamentalista. Outra bem diferente é praticá-lo.

Acrescento que esse problema de ocupação das salas com produtos audiovisuais norte-americanos não é exclusivo do Brasil. Tirando algumas exceções, como Índia, China, Irã e poucos outros, o cinemão americano impera, deita e rola. Na Espanha, por exemplo, os filmes nacionais ocupam apenas de 10% a 15% do mercado, embora produzam 100 longas-metragens ao ano.

Por acaso, estava lendo hoje de manhã o jornal El País e deparei com uma notícia relacionada a este caso. O sindicato dos donos de cinemas iria promover fechamento de parte significativa das salas nas segundas-feiras, em protesto contra a cota de tela local que prevê a exibição de pelo menos um filme europeu para cada três filmes americanos colocados em cartaz. Dizem os proprietários que são obrigados a exibir filmes europeus, que ninguém quer ver, e as salas ficam às moscas, causando-lhes prejuízo. O que fazer? Entregar de vez o mercado a quem já tem 85% dele e ambiciona ficar com 100%? Mesmo os defensores de um livre mercado intocável ficariam felizes com essa situação?

Devo acrescentar que o título dos dois posts expressa indignação, nem tanto com esse estado de coisas (afinal, guerra é guerra e eles estão na deles), mas com o conformismo que parece ser uma característica marcante do nosso tempo. Aquele tipo de atitude: “o mundo é assim mesmo, não podemos fazer nada, é melhor abaixar a cabeça e seguir em frente”. Minha geração não consegue pensar desse jeito. É uma limitação.