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Será que ameaça de vaia funciona?

Luiz Zanin Oricchio

16 Outubro 2007 | 19h01

Se jogar aqui desse jeito, vai tomar vaia. Era o que diziam os peões ontem de manhã nos botecos, entre uma média e um pão com manteiga. Aliás, com margarina, porque manteiga o pão não vê há muito tempo. Falava-se, claro, da seleção brasileira e do pífio empate de 0 a 0 no domingo com a Colômbia. É verdade: se o time do Dunga jogar com a mesma indolência e desinteresse de Bogotá, o Maracanã, que segundo Nelson Rodrigues vaia até minuto de silêncio, não deixará de mandar o seu recado à moçada.

Ouso acreditar que isso não vai acontecer. Acho que, no Maracanã lotado, um certo frisson deverá animar os “nossos” rapazes diante do também fraco Equador. Mas nunca se sabe. Atualmente, em se tratando de seleção brasileira, é sempre bom se preparar para o pior. Falta muita coisa para o time e alguns desses problemas têm explicações técnicas. Pode-se dizer que o Love não é o nome e então o time se ressente da falta de um matador (não ficaria surpreso se Ronaldo Fenômeno ressurgisse, como Fênix). Além disso, o “trio de ouro”, Ronaldinho, Kaká, Robinho, vem brilhando feito jóia falsa. E há também a compulsão defensiva de Dunga. Quando deveria ter ido para cima da Colômbia, tirou um atacante e colocou um volante, seguindo seus instintos básicos. Tem uma concepção pequena do futebol e isso não tem cura. Mais: inventa o tal do Afonso, mas não leva a aposta até o fim e dá cinco minutos ao rapaz para mostrar por que está sendo convocado.

Enfim, motivos técnicos existem e podem até justificar atuações pífias. Mas acredito que o principal seja mesmo a falta de motivação, para não usar outra palavra mais chula. Não adianta dizer que o time está desentrosado, ou a que a altitude prejudica, ou que o avião chegou de madrugada e não conseguiram dormir, que estranharam a bola, a grama e tudo o mais. Diante da fragilidade do adversário, tinham obrigação moral de apresentar coisa melhor.

O problema é que não se viu qualquer evolução desde a Copa América, torneio que a seleção jogou mal e venceu bem, numa partida final jogada com alma e inteligência – e não por acaso contra a Argentina, o rival maior. E aí é que está o xis da questão. Essa seleção, formada por gente enjoada, só se dá ao trabalho de jogar alguma coisa quando se sente desafiada – seja pela iminência de uma vaia, seja por alguma rivalidade ancestral. Assim, talvez possamos esperar boas partidas contra o Uruguai e a Argentina. Mas não seria nenhum despropósito pedir algum futebol contra o fraco Equador. Não é nada demais esperar um pouco de bola no reencontro entre a seleção e o estádio que um dia já foi a sua casa. Só pela festa, porque, como sabemos todos, a vaga para a África do Sul já está no papo.

BRASILEIRÃO

A disputa pela Libertadores está acirrada e dá sobrevida a um campeonato já decidido. Fui à Vila Belmiro no sábado e vi um bom jogo, embora esperasse mais de Santos e Palmeiras, concorrentes diretos a uma vaga. O Palestra entrou em condições de superioridade contra um Santos desfalcado de dois dos seus principais jogadores – Kléber e Maldonado, a passeio com suas respectivas seleções. No segundo tempo, os dois times pareciam satisfeitos com o empate. O Santos ainda forçou um pouco, mas não o suficiente para fazer a diferença. Esta é a hora em que os treinadores começam a fazer contas e nem sempre a matemática é aliada do bom espetáculo.

(Estadão, Esportes, Coluna Boleiros, 16/10/07)