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Sátira eleitoral indiana dá início ao Olhar de Cinema 2017

Começou a maratona de 125 filmes, com destaque para dois longas da mostra competitiva, o italiano Vangelo e o indiano Newton

Luiz Zanin Oricchio

09 Junho 2017 | 11h09

 

CURITIBA – Dou início aos meus “despachos” (saravá!) sobre o Olhar de Cinema, agora em sua sexta edição. Telegráficos, como costumam ser textos de festival, escritos no calor da hora, sem muito tempo de decantação, mesmo porque vemos de 4 a 6 filmes por dia.

Falo primeiro das raridades. Vimos ontem um Murnau menos conhecido, a comédia As Finanças do Grão-Duque. Peripécias de um minúsculo grã-ducado europeu à beira da falência, mas que pode ser salvo por um casamento providencial do seu governante com uma princesa russa milionária. Acontece que uma carta de amor comprometedora cai em mãos erradas e…


Como se vê, trapalhadas amorosas (mescladas a comentários bastante sarcásticos sobre política e economia) em um filme menor porém, já cheio de inspiração visual do grande cineasta de Nosferatu e Aurora. Super valeu.

Da mesma forma, vimos História de Taipei, do taiwanês Edward Yang, um dos pais da “nouvelle vague” oriental. Aliás, o filme em sua elegância, e em sua desilusão de tom existencialista, o filme é pura nouvelle vague. O tom de angústia predomina entre o casal formado pela beldade Chin e seu namorado, um ex-campeão de beisebol. É extraordinariamente bem filmado, um prazer visual que não se encontra facilmente no cinema.

E, para prová-lo, chegamos aos dois filmes da competição. O italiano Vangelo, de Pippo Delbono, diretor-narrador-ator que sofre com a morte da mãe e com o diagnóstico incerto de uma doença que o faz ver imagens duplicadas. Em seu desespero, Pippo resolve encenar o Evangelho tendo como atores imigrantes africanos. A intenção é muito boa. O resultado nem tanto, numa filmagem invasiva e mal feita. A democratização do digital trouxe muitas coisas positivas. Trouxe, de contrapeso, a preguiça estética e o desleixo visual.

Um pouco melhor, mas não muito, é o indiano Newton. O personagem é um obstinado, escalado como fiscal eleitoral para levar uma urna de votação a um rincão longínquo do gigantesco país. Local, para piorar, assolado por uma suposta guerrilha maoísta. O filme tem lá sua graça, em determinados momentos. Em especial, quando Newton precisa se confrontar a um oficial de exército, chefe do destacamento que, em tese, deve protegê-lo, mas que não tem qualquer interesse que a eleição se realize.

A esse tom puxado para o burlesco, somam-se algumas reflexões a respeito da democracia representativa, tema sobre o qual nós, brasileiros, temos por certo algo a acrescentar à sabedoria universal. A Índia também, pois é um país complexo, extenso, superpopuloso, com 800 milhões de eleitores e uma tendência imaginária para o fabuloso que não se deve desprezar.

No entanto, o filme promete mais do que cumpre e, não raro, banaliza situações e assim diminui seu potencial tanto cômico quanto reflexivo. Mal filmado, também.