Relações familiares e disfunções sociais no Cine Ceará
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Relações familiares e disfunções sociais no Cine Ceará

O brasileiro Pedro sob a Cama e O Homem que Cuida, da República Dominicana, foram as atrações do Cine Ceara na noite de ontem no Cine São Luiz

Luiz Fernando Zanin Oricchio

10 Agosto 2017 | 12h23

Pedro sob a Cama

 

FORTALEZA – Uma noite um tanto estranha no Cine Ceará, com o programa duplo do brasileiro Pedro Sob a Cama, de Paulo Pons, e de Um Homem que Cuida, de Alejandro Andújar, da República Dominicana. E mais um curta-metragem, Memórias do Subsolo, de Felipe Camilo, do Ceará.

Começo pelo longa nacional. Pedro sob a Cama foi todo filmado em Pedro Osório, pequena localidade no Rio Grande do Sul, terra natal do diretor, que vive há muitos anos no Rio de Janeiro. Fernando Alves Pinto faz Mariano, um ser misterioso que, após um acidente (que para muitos foi um crime) desaparece por oito anos e ressurge tentando reatar algumas pontas soltas da vida.


Quer se aproximar do filho de oito anos, que nem chegou a conhecer, e de um enteado adolescente. É um filme de reaproximação, de resgate afetivo, levado com a conhecida precisão (e contenção) por Fernando Alves Pinto, ator fetiche da diretora Lina Chamie. Perguntei ao diretor pelos “buracos” de roteiro e me confirmou que foram intencionais, para que o espectador ajudasse a construir a história, que não lhe seria dada pronta e mastigada.

Por exemplo, há uma cena, dentro do carro, entre Mariano e o enteado Mani, da qual não se escuta o diálogo, mas apenas as reações dos personagens. Ele disse que chegou a escrever esses diálogos, que seriam plenamente explicativos, mas acabou retirando-os no quarto tratamento do roteiro. É uma opção pela opacidade, pelo rarefeito, que às vezes funciona, outras não.

O fato é que Mariano conduz sua vida, num primeiro momento, por uma escalada de violência, que depois tenta resgatar. O resultado da primeira fase da sua vida são oito anos de isolamento, um filho que não possui o dom da fala, e um enteado, agora adolescente, cheio de ódio pelo padrasto.

Observei também ao diretor que achei a fotografia muito chapada e uma cópia que apresentava alguns defeitos digitais (não efeitos, atenção, mas defeitos). Confirmou que tivera problemas com a cópia em DCP, sem qualquer responsabilidade do festival quanto à exibição. Fica a ressalva, a ser conferida quando o filme entrar em cartaz. Enfim, este é um drama familiar interessante, fechado em si e que aponta para uma possível e trabalhosa redenção.  

Por outro lado, temos um filme dominicano bastante interessante. O Homem que Cuida tem como personagem principal Juan (Héctor Aníbal), caseiro de uma dessas residências de veraneio deslumbrantes próxima ao povoado de pescadores Palmar de Ocoa.

Juan é um cão de guarda. Vigia a casa do patrão como se fosse sua. Por isso fica muito preocupado quando chega o filho do dono da casa, um amigo cubano e uma garota do local. A ideia é fazer uma festinha breve, mas esta se prolonga, com algumas consequências.

Por meio dessa dramaturgia simples, filmada toda dentro da casa, Andújar analisa, sem qualquer didatismo fácil, as questões de classe e raça dentro de uma sociedade desigual. Os meninos, branquinhos e ricos, tratam os outros como objetos. Sob o pretexto de uma falsa familiaridade, Jesus é como um serviçal sem personalidade própria. A menina, negra, é tratada como uma coisa, que vale para o prazer de uma noite e precisa ser descartada antes que cause algum problema.

Repito, tudo é feito e dito com a máxima simplicidade, o que torna o efeito ainda mais intenso. Um bom filme.