Que Viva Mexico!
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Que Viva Mexico!

Luiz Zanin Oricchio

16 Maio 2018 | 15h39

Tulum

Bem, estamos aqui de novo, depois de deliciosos 15 dias no México. Estive lá ano passado e gostei tanto que voltei.

Fomos convidados pelo Prêmio Platino e ficamos 5 dias num resort na Riviera Maya, no sul do país. Lá realizei um dos meus sonhos – conhecer Tulum, que ficou famosa por causa de Federico Fellini, Milo Manara, Carlos Castañeda et caterva.

A história é mais ou menos a seguinte: Fellini ficara fascinado com a leitura dos livros de Castañeda, grande sucesso editorial do início dos anos 1970 com A Erva do Diabo, Viagem a Ixtlan e outros. Neles, Castañeda, um misterioso antropólogo, contava sua iniciação na magia (e no peiote) com o mais ainda enigmático índio iaque do deserto de Sonora, um tal Dom Juan Matus.

Fellini viajou ao México para encontrar Castañeda e a história em si é um rolo. Até hoje não se sabe se os dois estiveram juntos ou não. Pode ser tudo invenção de Fellini, notório mentiroso.

De qualquer  forma, havia a ideia para um filme. Que acabou não saindo, mas virou uma magnífica Graphic Novel, Viagem a Tulum, desenhada por Milo Manara a partir da ideia de Fellini.

Tulum, em si, é uma cidade que contém o sítio arqueológico que visitamos, ruínas da cidade antiga à beira do Mar Caribe. Fantástico. E compreende-se que tenha atiçado a imaginação febril de Fellini e feito com que vislumbrasse um filme. Um daqueles que ele não fez, como Viaggio de G. Mastorna. Ambos teriam Marcello Mastroianni mais uma vez como alter ego do cineasta.

Dali fomos para a Cidade do México, para completar o que não havíamos visto vez passada – Xochimilcho (a Veneza mexicana), o Castelo de Chapultepec (onde vimos o mais fabuloso mural de Siqueiros, uma obra-prima) e etc. Fomos também a cidades como Cuernavaca (motivados pela leitura de À Sombra do Vulcão, de Malcolm Lowry) e Taxco, cidade produtora de prata elogiada por Erico Verisssimo em seu México – História de uma Viagem, livro dos anos 1950 que descobri num sebo em São Paulo.

Além da visita aos lugares óbvios (como o estupendo Museu da Revolução), houve muito passeio um tanto ao acaso pela cidade gigantesca. Num deles, descobrimos a rua dos livros usados, a calle Doncelles, no centro, verdadeira perdição para bibliófilos. Tem um sebo atrás do outro, muito bem organizados, com livreiros que conhecem seu ofício e nos atendem com uma gentileza de dar gosto.

Aliás, essa é a impressão geral do país. Tem lá seus problemas, como gente demais pedindo na rua, mas mantém intacta a lhaneza do trato. Com exceção dos lugares muito turísticos, tudo é bem mais barato que o Brasil. Em especial o transporte público. O Metrô e o Metrobus, que cortam a cidade de lado a outro, custam 5 pesos. Cerca de 90 centavos de Real.

O México é um país rico em história e cultua essa condição. Os museus são de dar inveja e muitos deles nada ficam a dever aos europeus. O Museu de Antropologia, no bosque de Chapultepec, necessitaria de uns três dias para ser visitado com calma. Outro tanto para o Templo Mayor, fincado em pleno Zócalo, o coração da metrópole. A cidade é arborizada e dispõe de muitos parques para uso da população. O de Chapultepec é o maior da América Latina. De fato, é uma floresta em plena cidade. Há os menores e igualmente arborizados e usados pela população, como os de Roma e Espanha, localizados no bairro Condesa, onde ficamos desta vez.

Ou seja, apesar de enorme e superpovoada, a cidade não é opressiva como São Paulo. E as pessoas sentem isso. Num domingo, você encontra multidões nesses jardins e no centro da cidade. Num deles assistimos a uma apresentação de mariachis no Zócalo, com as pessoas dançando (e sapateando) ao som das músicas.

Enfim, haveria muito que contar. A lembrança que trago é muito positiva. E vem junto com muitos livros comprados e DVDs. Entre os livros, a trilogia Pátria, de Paco Ignácio Taibo II, uma incursão na história para explicar o ressurgimento do orgulho nacional como reação à política discriminatória de Donald Trump. Quando você conversa com mexicanos, sente o ódio que a abjeta história do muro na fronteira desperta entre eles. A trilogia está entre as obras mais vendidas. Também de Taibo II comprei uma biografia de quase mil páginas de Pancho Villa, um dos ícones da Revolução Mexicana. Estou lendo agora.  Também veio na mala um Zapata y la Revolución Mexicana, de John Womack, considerado um clássico do tema. Y otras cositas más, que irei mencionando adiante.

Há tensões. O candidato da esquerda, Lopez Obrador, lidera as pesquisas. Sofre, claro, com o habitual terrorismo dos “liberais”, dizendo que, caso eleito, os empresários deixarão o México, etc. Lembrei do então presidente da Fiesp, Mario Amato, que dizia que 800 mil empresários sairiam do Brasil caso Lula fosse eleito. Os países da América Latina são bastante parecidos em alguns aspectos. Por sorte, não em todos.  

Ir ao México é mais do que uma viagem – é imersão numa cultura. Riquíssima.