Quase todos pretos…
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Quase todos pretos…

Luiz Zanin Oricchio

28 Junho 2007 | 15h35

morto

alemao

Amigos, olhem bem para as fotos da tragédia de ontem no morro do Alemão. Vendo-as, lembrei, sei bem por quê, da letra de Caetano Veloso em Tropicália 2. Pensem, sobretudo os que são contra cotas ou qualquer forma de integração ou reparo a agravos históricos.

Quando você for convidado para subir no adro da
Fundação Casa Jorge Amado
pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
dando porrada na nuca de malandros pretos
de ladrões mulatos
e outros quase brancos
tratados como pretos
só para mostrar aos outros quase pretos
(e são quase todos pretos)
e aos quase brancos pobres como pretos
como é que pretos, pobres e mulatos
e quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados.
E não importa se os olhos do mundo inteiro possam estar por um
momento voltados para o largo
onde os escravos eram castigados.
E hoje um batuque, um batuque com a pureza
de meninos uniformizados
de escola secundária em dia de parada
e a grandeza épica de um povo em formação,
nos atrai, nos deslumbra e estimula.
Não importa nada:
nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico,
nem o disco de Paul Simon.
Ninguém,
ninguém é cidadão.
Se você for ver a festa do Pelô
e se você não for
pense no Haiti
reze pelo Haiti.
O Haiti é aqui.
o Haiti não é aqui.

De: “Haiti”, CD Tropicália 2, 1993
Música: Gilberto Gil
Letra: Caetano Veloso