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Propriedade Privada

Luiz Zanin Oricchio

08 Outubro 2007 | 09h27

Claro, Isabelle Huppert está ótima como de hábito. Grande atriz, ela não rende apenas com seu cineasta favorito, Claude Chabrol, mas trabalha bem com diretores menos experientes, como o belga Joachim Lafosse, com o qual ela interpreta a matriarca Pascale em Propriedade Privada.


A história parece um pouco pífia, se vista isolada do seu contexto cinematográfico. A madura Pascale (Huppert) é a dona da tal propriedade, uma bela fazenda restaurada, onde vive com os dois filhos adultos. Ela se divorciou e seu novo companheiro a incentiva a vender a casa e seus arredores, pegar a grana e iniciar vida nova comprando uma pousada nos Alpes. Acontece que os dois filhos, que de garotos não têm nada, parecem ter medo de perder a casa. São dois galalaus, que vivem na barra da saia da mãe e não pretendem abrir mão dos seus direitos.

Há desdobramentos interessantes na história, pois quando os ‘meninos’ brigam com a mãe, ela resolve chutar o balde, sair de casa e deixá-los sozinhos para resolverem seus problemas. Esse ato, por sua vez, provocará o conflito entre os dois rapazes, e assim por diante, até se esboçar o drama familiar, que faz a substância do filme.

Claro, Lafosse, com uma direção um tanto fria, porém correta, busca introduzir-se nesse universo razoavelmente neurótico, que envolve tanto a dependência materna, como ciúmes entre irmãos e apego aos direitos de propriedade. O filme baseia sua força menos pela pertinência do enredo que pelas interpretações. De Huppert, é dispensável falar. Mas deve-se registrar que os rapazes que interpretam Thierry e François também vão bem. Chamam-se Jérémie Renier e Yannick Renier e, como se vê pelo sobrenome comum, são irmãos também na vida real, o que não deixa de ser uma curiosidade adicional.

Propriedade Privada concorreu no Festival de Veneza do ano passado e não ganhou qualquer prêmio oficial. Recebeu o Signis, que é o atual nome do antigo Ocic, o prêmio do Ofício Católico do Cinema, que também é importante, mas tende a dar mais importância ao valor humanístico das obras que elege do que à sua qualidade cinematográfica. Mas, no fundo, Propriedade Privada, que é um bom filme apesar de nada excepcional, pode se distinguir por esses dois aspectos.

E, sim, a idéia de trazer dois irmãos para interpretar essa história de Caim e Abel em disputa pela atenção materna, não deixa de produzir resultados interessantes. Ambos estavam em Veneza e disseram, em entrevista, que o fato de serem irmãos na vida real os havia auxiliado a dar vida e matiz aos papéis de Thierry e François. Conheciam, disseram, de maneira muito clara essa dinâmica que pode se estabelecer entre irmãos, feita de amor e rivalidade, e assim conseguiram dar vida aos personagens com mais facilidade.

Ajudados, provavelmente, por um diretor que trabalha com a palavra, mas muito mais com a imagem, quer dizer, com a força da expressão. Talvez nesse seu estilo lacônico, em especial em algumas cenas de interiores, esteja o maior mérito de Propriedade Privada. Cenas domésticas, os silêncios durante as refeições, na sala de estar, próximos da lareira – esses personagens calados conseguem expressar mais de sua condição existencial do que se falassem pelos cotovelos.

É dessa forma, pelo que não é dito, que alguma coisa de nada banal passa ao lado de uma história que teria tudo para sê-lo. Tal é o ‘mistério’ do cinema: muitas vezes ‘filmar o invisível’, expressão que designa mais uma metáfora do que seja arte do que uma realidade. Porque ninguém filma o invisível, no sentido estrito, mas apenas no figurado. Acontece que o cinema é uma arte que tem se acostumado com a acumulação (de imagens e de sons) quando, na verdade, deveria às vezes trabalhar como a escultura, tirando elementos (ao invés de colocá-los em soma) até encontrar seu objeto.

Assim, de maneira talvez intuitiva, dado seu noviciado, Lafosse consegue êxito trabalhando por elisões. Onde as imagens podem falar mais do que as palavras, ele não as coloca. Onde pode sugerir, evita as cenas explícitas. O que pode ser subentendido, é deixado como tarefa ao espectador. Essa concepção de cinema, é bom que se diga, não se mantém uniforme ao longo de todo o filme. Lá e cá, ele deixa de confiar totalmente no poder de construção de quem recebe a obra. E tende a preencher esses supostos vazios com uma presença mais reiterativa. Felizmente, esses momentos mais óbvios são minoria. Em geral, o filme mantém esse tom mais aberto e propício à participação da platéia.

O que não quer, em absoluto, dizer que Propriedade Privada tenha algo de ‘difícil’ para o público. Pelo contrário. É um filme narrativo, contado em ordem direta, com princípio, meio e fim – e nessa ordem. De material poroso, sofre algumas oscilações de ritmo, mas, ao fim, se torna agradável de ver. Pela força de atuação de Huppert, em primeiro lugar, e dos rapazes, em segundo, mas também pela opção respeitosa do diretor em relação à inteligência do espectador.