As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Primeiro ver Nápoles…e depois morrer

Luiz Zanin Oricchio

25 Junho 2007 | 15h11

Bonito texto de Umberto Eco na Le Nouvel Observateur sobre Nápoles, seus encantos e suas contradições. Eco escreve a partir da leitura do livro Dictionaire Amoureux, de Jean-Noël Schifano, que acaba de sair na França.

Mas, antes de chegar a ele, rememora o fascínio exercido pela Itália sobre estrangeiros, o primeiro deles, e talvez o maior de todos, o alemão Goethe, autor da indispensável Viagem à Itália. A Bota reuniu uma legião de admiradores na vizinha França, a começar por Stendhal, Mme de Staël, Nerval, Dumas, Gautier e Lamartine. Agora, Schifano que, francês, mas com um sobrenome desses, deve ser de família italiana, quiçá napolitana.

Eco reconhece sua dificuldade em julgar o livro de maneira objetiva, pois Schifano é também seu tradutor na França e ele se confessa admirador irrestrito do seu estilo. O fato de Eco ser ele próprio italiano também o impediria de exercer o senso crítico em relação a um livro sobre Nápoles? Não, pois, para ele, há mais diferenças entre um piemontês e um napolitano que entre um sueco e um baiano (“entre un suédois et um Brésilien de Bahia”).

O curioso, diz, é que o Dicionário Amoroso aparece na França quase simultaneamente ao lançamento na Itália de Gomorra, de Roberto Saviano. Este, esclarece, é uma denúncia tão violenta sobre a máfia napolitana (a Camorra), que o autor, alvo de ameaças, passou a viver incógnito e sob proteção policial. Curioso, porque enquanto Schifano vê Nápoles como um paraíso, Saviano enxerga a cidade pelo ângulo do inferno. Qual dos dois tem razão?

Provavelmente ambos, assinala Eco. Primeiro, diz, é sempre possível isolar-se em determinadas partes de uma grande cidade e ignorar o resto. Usa, mais uma vez, um exemplo brasileiro: “No Rio de Janeiro, podemos passar meses nos melhores hotéis de Copacabana ou Ipanema sem saber que a poucos quilômetros dali existe o inferno das favelas.” A frase denota tanto otimismo quanto ignorância geográfica, mas, vá lá, serve, a título de comparação. Da mesma forma, acrescenta, em Nova York podemos desfrutar do Village e da Quinta Avenida, deixando o Bronx de lado. E, em Paris, pode-se tomar um café nos Champs Elysées sem pensar nas banlieus perigosas, lá onde vive a “racaille” (ralé) à qual se referiu um dia o presidente Nicolas Sarkozy.

Mas, vendo o paraíso, Schifano não ignora a Nápoles obscura, garante Eco. Pelo contrário, o fascínio que a cidade exerce sobre o escritor não vem de uma imagem idealizada, e sim de suas contradições profundas. É uma terra de superstições arraigadas, mas também berço de nomes ilustres da filosofia. Entre eles, “apenas” Thomas de Aquino, Giordano Bruno, Giambatista Vico e Benedetto Croce. Existe em Nápoles o poderoso crime organizado que se autocelebra em canções, mas também um teatro vigoroso e um cinema marcante, com nomes históricos como Eduardo De Filippo e Totò.

Como falar de realidade tão contraditória? Schifano escolhe a forma da lista alfabética, do dicionário, e recorre a verbetes para montar seu caleidoscópio. Com entradas como Calígula, Flaubert, Mussarela, San Genaro, Vesúvio, ele vai montando seu mosaico, sem chegar a qualquer conclusão definitiva sobre essa cidade de fato inapreensível. Um dos verbetes mais extensos é consagrado a San Genaro e ao milagre da liquefação do sangue, que se reproduz a cada ano em ambiente de fervor e feitiço, entre orações, gritos e lágrimas.

Por que tanta atenção a essa cerimônia? Responde Schifano: “Porque em Nápoles a religião cheira a enxofre. E eu amo isso.”