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Piaf

Luiz Zanin Oricchio

14 Outubro 2007 | 10h43

Quando saiu na França, o filme de Olivier Dahan provocou uma verdadeira ‘piafmania’, com reedições de todos os tipos, lançamento de biografias e caixas com CDs da cantora. O público final chegou a mais de 5 milhões de pessoas, o que é compreensível: afinal, trata-se de um mito francês, uma autêntica legenda popular da ‘França profunda’, como se costuma dizer. No Brasil, não deve chegar nem perto disso. Mas não existe também motivo para que Piaf – Um Hino ao Amor não emplaque também por aqui. Porque, francesa até a medula dos ossos miúdos (não passava de 1,47 m de altura), Edith Piaf alcançou altura universal. Basta lembrar também do sucesso de Bibi Ferreira encarnando no palco a cantora francesa.

Como filme, Piaf é um docudrama bastante convencional, do ponto de vista cinematográfico. Cresce demais com a interpretação profunda de Marion Cotillard, imersão de arrepiar de uma atriz em uma personagem trágica. Marion é emocionante, cantando, sobre um palco, envelhecendo precocemente como Piaf, incorporando essa criatura genial (e geniosa), sem qualquer vocação para o equilíbrio e muito menos para a felicidade pessoal.

E como poderia ser? La Môme, a garotinha, como os franceses se acostumaram a chamá-la e título do filme em francês, atravessa a guerra, vive em Paris durante a Ocupação e exulta com a Liberação. Fora criada na rua, praticamente, filha de mãe estróina e um pai contorcionista de circo e chegado ao copo. Foi criada em um bordel, na Normandia, por uma tia materna. Teve no boxeador Marcel Cerdan seu grande amor. Cerdan morreu num desastre de avião e esse foi o trauma da idade adulta de Piaf, que se juntou aos da meninice e juventude.

Mas, e a artista? Dizem os que a ouviram ao vivo que crescia e se transformava em gigante, como acontece com as grandes cantoras. Era uma atriz e não apenas uma intérprete musical. E aí começa o trabalho notável de Marion, que consiste em não ficar aquém da personagem. Para isso, tem de compreender – e executar – a teatralidade da interpretação de Piaf. Esse aspecto rende uma seqüência de grande cinema. É quando ela descobre que não é apenas uma cantora, mas uma atriz – e que, portanto, depende muito da expressão facial e corporal para se comunicar com o público. A sacada foi fazer essa cena com outra música, que não é a de Piaf cantando. Desvincula o corpo da voz e faz com que prestemos atenção à imagem mais que ao som. Essa a dissonância: ver Piaf cantando, mas não ouvir a sua voz, o que produz uma funda impressão.

A outra é um achado em termos cinematográficos. Dá-se quando ela recebe a notícia da morte de Marcel Cerdan e vaga em desespero pelos cômodos da casa, até que um dos corredores desemboca diretamente sobre um palco. No qual ela dá forma à sua dor com a voz sublime que era a sua. Melhor maneira não existe de dizer que aquela voz só era possível porque havia nela a dor de viver. Ou seja, uma voz que necessitava de uma vida como a sua.

Em seu país, Piaf é um signo rico de sentidos. Ela representa a França dos anos duros, a rua, a miséria, o álcool, a guerra, os sonhos perdidos. Mas é também a época de ouro dos cabarés, o sucesso internacional, os amores loucos, a vida gasta rapidamente, queimada como um palito de fósforo. Para nós, é a alma romântica levada ao paroxismo, àquele limite em que o patético confina com o sublime. Ouçam-na cantar La Vie en Rose, Le Légionnaire, L’Hymne à l’Amour. É um arrebatamento.