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Peter Gay (1923-2015)

Luiz Zanin Oricchio

14 Maio 2015 | 10h15

O historiador Peter Gay, alemão de nascimento e norte-americano naturalizado, morreu ontem, aos 91 anos, em sua casa em Nova York. Autor de vasta obra, com foco no período vitoriano, Gay, nascido Peter Joachim Fröhlich em 20 de junho de 1923, em Munique, tornou-se muito conhecido como biógrafo de Sigmund Freud, o criador da psicanálise.

Gay fugiu da Alemanha nazista em 1939 e instalou-se nos Estados Unidos, com a família, em 1941. Obteve a cidadania norte-americana em 1946 e adotou uma forma original para “americanizar” seu sobrenome – Fröhlich quer dizer exatamente Gay: ou seja, feliz. De resto, toda sua educação e carreira acadêmica foi feita nos Estados Unidos, na Universidade de Columbia. Gay lecionou em Yale até sua aposentadoria.

A escolha do período vitoriano como foco do seu interesse deu consistência ao seu trabalho. Sua obra é feita de livros muito pesquisados, com atenção às fontes primárias, mas também magnificamente escritos, altamente legíveis, mesmo para o leitor não especializado. São obras, em sua maioria, dirigidas ao leitor culto, que não necessariamente domina o jargão acadêmico. Ademais, mesmo numa carreira feita integralmente nos Estados Unidos, Gay não perdeu um certo toque europeu. Seus textos encantam pelo rigor, mas também pela facilidade como estabelece nexos entre disciplinas diferentes. Se for preciso qualificá-lo, poderia-se chamá-lo de um historiador da cultura.

Entre seus livros encontra-se o monumento que é A Experiência Burguesa, composto de cinco volumes: da Rainha Vitória a Freud, composta por cinco volumes: A Educação dos Sentidos (1989), A Paixão Terna (1990), O Cultivo do Ódio (1995), O Coração Desvelado (1999) e Guerras do Prazer (2001). Escreveu ainda o delicioso O Século de Schnitzler (2002), sobre o escritor austríaco e o não tão notável Modernismo (2009). Sua última obra – que compreende ainda ensaios sobre Voltaire e o Iluminismo e sobre outros assuntos – foi Represálias Selvagens (2010), ensaios sobre Dickens, Flaubert e Eichenberg.

Em 1989, lançou Freud: uma Vida para o Nosso Tempo, aqui editado pela Cia das Letras (tradução de Denise Bottman). Era uma operação arriscada. Afinal, Freud, por sua importância para o século 20, havia sido abordado em dezenas, talvez milhares de escritos. Biografias, havia duas – a do seu médico Max Schur, e a do inglês Ernest Jones, em três volumes, considerada durante muito tempo a biografia “definitiva” do pai da psicanálise. A de Jones, era, de fato, a biografia oficial, sob o selo da Associação Internacional de Psicanálise, criada por Freud e sediada na Inglaterra, país onde ele se exilou durante o nazismo, e onde veio a morrer, em 1939. E permaneceu como o texto canônico sobre a vida de Freud, até que o de Gay.

Não que a de Gay “supere” a de Jones. Na história das ideias, as coisas não se passam assim. Acontece que foram escritas em época e condições diferentes. A de Jones tornou-se dominante nos anos 1950, quando a morte de Freud era ainda recente e a psicanálise ocupava um espaço mundial através da sua associação, tornada rigidamente ortodoxa por seus seguidores. A de Gay surge já numa época de contestação, com o legado do mestre sendo discutido de maneira mais aberta. Vale-se, além do mais, de material inédito, como boa parte da correspondência de Freud, inacessível para Jones.

O próprio subtítulo do livro ­– Uma vida para o Nosso tempo – sugere a intenção de Gay: trazer a mensagem freudiana, seu exemplo de rigor intelectual, correção e estoicismo diante do sofrimento para a nossa época. Freud não era apenas um herói intelectual que revolucionou uma disciplina específica. Ele criou sua própria doutrina, revolucionou a clínica das neuroses e influenciou todo o pensamento cultural de sua época e o posterior. Gay reaviva esse personagem, através dos seus atos e ideias.

Claro que havia um profundo ponto de identificação entre os dois, mesmo que separados por várias gerações. Como Freud, Gay abandonou a Alemanha nazista. Freud, no fim da vida, Gay no começo da sua. Ambos eram judeus de cultura germânica, não religiosos e confiantes no poder liberador do conhecimento. Nada mais lógico que Gay prestasse esse tributo ao seu antecessor, na forma de uma extraordinária biografia.