Para Ecléa Bosi, de um ex-aluno relapso
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Para Ecléa Bosi, de um ex-aluno relapso

Luiz Fernando Zanin Oricchio

10 Julho 2017 | 15h28

 

Soube agora há pouco da morte da professora Ecléa Bosi. Fui seu aluno em duas ocasiões – no curso de graduação em Psicologia na USP e, depois, na pós-graduação, no mesmo Instituto. Ecléa lecionava e dedicava-se à Psicologia Social.

Minha lembrança é a de uma professora bastante serena e de conhecimento sólido em sua disciplina. Tanto ela como o marido, Alfredo Bosi, este da área de Literatura, pautavam-se pelo figurino cool, discreto, daqueles que realmente têm o conhecimento de suas áreas, mas não fazem qualquer esforço para ostentar o saber. Pelo contrário, parecem modestos e envergonhados de, numa sociedade injusta, saberem tão mais que os outros.


Digo isso por uma razão precisa. No tempo em que fui aluno de Ecléa pela primeira vez, lá por meados dos anos 1970, a sociedade era engajada e politizada, muito mais que hoje em dia (hoje somos polarizados, o que é diferente; a cultura política caiu a níveis de indigência).

No entanto, a Psicologia não primava pela politização, em seu todo. Claro, havia professores mais militantes, mas a tônica da faculdade era de uma neutralidade difícil de manter numa época como aquela, em plena ditadura militar.

Pois bem, nesse contexto difícil, Ecléa, em sua maneira discreta, e sem qualquer proselitismo, dizia o que pensava e sentia. Repito: sem qualquer pretensão ou vocação para “doutrinar” ninguém, fazia, no entanto, questão de realçar o compromisso social da psicologia, em especial em relação aos menos afortunados. Citava muito Simone Weil,  filósofa francesa que se tornou operária da Renault para melhor escrever sobre o cotidiano do mundo do trabalho. Tenho para mim que Simone funcionava como uma espécie de modelo intelectual para Ecléa. Falava também muito em Antonio Gramsci, filósofo marxista italiano, que morreu na prisão fascista e deixou um tesouro escrito em seus diários do cárcere.

Ecléa era cultíssima. Com Alfredo, compunha aquele casal perfeito dedicado aos livros e ao conhecimento em geral. Citava muito, exigia demais dos alunos, mas dizia uma coisa da qual nunca esqueci: “Você não precisa ler tudo; precisa ler o fundamental”. Mesmo naquela época, longe do atual excesso enlouquecedor de produção em todas as áreas (inversamente proporcional à qualidade), ela advertia para a necessidade de filtrar, selecionar, empregar o esforço naquilo que fosse de fato importante. Temo não haver aprendido e assimilado a fundo suas lições, mas ainda é tempo.

Depois, Ecléa ficou bastante conhecida por seu Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos, livro no qual descobre, em conversa com operários e imigrantes idosos, todo um estoque de experiências e lembranças que não podem ser negligenciadas ou descartadas como se nada mais significassem para um mundo novo. É um livro maravilhoso. Depois foi idealizadora da Universidade Aberta à Terceira Idade, na USP, projeto que traz para salas de aula pessoas com mais de 60 anos.

A partir de suas pesquisas e suas reflexões, Ecléa parecia entender que os idosos compunham um novo grupo de marginalizados na sociedade de consumo. Tratava-os como seres humanos que são e não como fardos nas costas da Previdência Social, como faz o atual governo.

Enfim, se fosse preciso definir seu trabalho numa frase, diria que Ecléa Bosi praticava uma psicologia de cunho humanista, por mais que suas propostas soassem utópicas ou ultrapassadas no mundo da eficiência que se desenhava desde então. Nesse sentido, agindo na contracorrente, era sim extremamente política.