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Palavra (En)cantada e a polêmica sobre o Nobel de Bob Dylan

Luiz Zanin Oricchio

13 Outubro 2016 | 15h11

Os versos de Bob Dylan são obra de literatura e portanto ele estava perfeitamente habilitado a disputar o Nobel, que de fato ganhou? Como contribuição à polêmica, republico meu texto sobre um filme brasileiro, de Helena Solberg, que discute precisamente essa questão .

 

 

A diretora Helena Solberg diz que gosta de trabalhar com conceitos. Quer dizer, “pensa” os filmes que faz, procura dar-lhes estrutura e um eixo de progressão. Esse cuidado está em Carmen Miranda – Bananas Is My Business e Vida de Menina. No primeiro, em relevo, discute a ambiguidade da imagem de Carmen para os brasileiros – glória ou vergonha nacional? Ou ambos? Em Vida de Menina, tirado das memórias de Helena Morley, o foco repousa na percepção aguda de um olhar jovem sobre uma sociedade velha, escravocrata e provinciana, no interior de Minas durante o século 19.

Também em Palavra (En)Cantada nota-se essa preocupação. Neste caso, discutir a relação entre som e verbo, esse enlace fundamental que dá corpo – e alma – à canção. Por isso, a tentativa, embora não exaustiva, de explicitar a linha trovadoresca que vai dos provençais a Chico Buarque e Lenine. Corre um debate interno ao filme – letra de música, isolada, é poesia ou não? Paulo César Pinheiro, grande letrista, opina que sim, pelo menos às vezes. “Quem dirá que alguns versos de Chico Buarque não são poesia?”, lança, como desafio. Mas o próprio Chico, na entrevista, confessa que se sente incomodado quando o chamam de poeta. Ele mesmo não se considera como tal. Nessa conversa entre artistas, o também músico, e teórico, Luiz Tatit opina: “Poeta, no sentido estrito, ele não é mesmo; não senta na mesa, com papel e lápis, para escrever um texto poético. Ele pensa o verso já na relação com a música.”

Esse é o debate, que corre às vezes mais aparente, outras em surdina, ao longo do filme. Que, exatamente por não se ater a ele de maneira pétrea, torna-se extremamente agradável. Apesar de manter o eixo em vista, Helena deixa o documentário fluir, à vontade. Mescla depoimentos com material de arquivo e propõe um painel bastante amplo do seu assunto. Através da canção – quem sabe a manifestação cultural mais forte no Brasil -, “lê” um país. O Brasil de Cartola é, ao mesmo tempo, o mesmo e muito diferente, do país do rap, o som da periferia de São Paulo, comentado por Ferréz . O país pode ser interpretado à luz da música – e essa discussão, de certa forma, transcende o debate teórico sobre a “poesia” ou não das letras.

Por exemplo, na maneira como o tropicalismo, à sua maneira, se opõe e complementa a bossa nova existe toda uma dialética do País atravessando de vez um certo isolamento nacional e se abrindo ao diálogo com o exterior. A bossa já era isso, uma conversa inteligente entre o samba e o que de melhor havia na música norte-americana. O tropicalismo dá outro passo: flerta com o pop e também com a obra considerada de mau gosto, o kitsch. Era o Brasil ingressando na geleia geral contemporânea, e sob uma forma profética. Esses passos, que não são apenas musicais, mas da cultura em seu todo, podem ser lidos nesse belo (e sonoro) documentário.

(Caderno 2, 13/3/09)