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Paixão é fundamental

Luiz Zanin Oricchio

23 Outubro 2012 | 08h45

Alguns colegas definiram Atlético-MG 3 x 2 Fluminense como o melhor jogo do campeonato. Têm razão. Forço a memória e não encontro rival à altura. A partida entre os dois primeiros colocados teve de tudo: belas jogadas e gols, virada, polêmica, intensidade, paixão. Uniu técnica e calor humano. Para este último item contribuiu, claro, a sempre animada torcida do Galo, que lotou o Independência. Com a vitória, o Atlético pôs fogo nessa reta final do campeonato. A vantagem do Fluminense, agora de seis pontos, ainda é muito grande. Mas já não parece intransponível.

Assim como não parece impossível a salvação do Palmeiras, que duas rodadas atrás os matemáticos já davam como virtualmente rebaixado. A permanência do Palestra na primeira divisão de 2013 parecia nada além de simples abstração estatística. Mas, depois de duas vitórias seguidas, sobre Bahia e Cruzeiro, a esperança voltou a ser tão verde quanto a cor do uniforme – pelo menos quando o Palmeiras não usa aquela horrível camisa de marca-texto.

Tanto no alto como embaixo da tabela, o fogo da paixão acende o futebol. E nos ilumina a todos, que gostamos do joguinho da bola. Lá em cima, as jogadas de Ronaldinho e Fred nos conquistam, assim como as defesas de Diego Cavalieri. A criatividade rediviva do Gaúcho, que muitos consideravam extinta, acha espaços improváveis num campo congestionado. Foi decisivo em pelo menos dois dos três gols do Galo e ainda teve um seu, de falta, anulado. Cavalieri parecia invencível. Quando não era ele, eram as traves que o salvavam. Fred continua a ser aquele atacante frio e decisivo, capaz de se fingir de morto ao longo de toda uma partida, apenas para decidi-la no último momento. Era o que aconteceria, não houvesse a bola alçada com precisão cirúrgica pelo Gaúcho para a cabeçada de Leonardo Silva. Esse gol e mais o oportunismo de Jô e a extraordinária categoria do garoto Bernar possibilitaram ao Galo a sobrevivência do sonho com o título que não vê desde 1971.

Do lado do Palmeiras, dois nomes têm sido fundamentais: Marcos Assunção e Barcos. Ambos decisivos com seus gols e jogadas. Imprescindíveis também pela dedicação. Barcos entrando em campo para jogar após ter servido a seleção argentina no dia anterior. Assunção jogando mesmo com o joelho inchado, sem condições médicas ideais. Quem o condenaria se tivesse ficado na fisioterapia, se recuperando? Mas ele decidiu jogar no sacrifício. Está fazendo história e, se o Palmeiras se salvar, terá sido um dos principais responsáveis por isso.

Pois é, meus amigos, se olharmos apenas para esses jogos, chegaremos à conclusão de que o futebol brasileiro é um dos melhores do mundo. Para voltarmos à realidade, no entanto, bastará haver assistido a Ponte Preta 1 x 0 Santos. Encontro burocrático entre o limitado time da Ponte e um Santos que, mesmo com Neymar em campo, não conseguia disfarçar a falta de apetite. Quem pouco tem a perder ou a ganhar não encontra energia nem para atravessar a rua.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão