‘Últimos Dias em Havana’, o grande filme do Cine Ceará 2017
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‘Últimos Dias em Havana’, o grande filme do Cine Ceará 2017

O filme de Fernando Pérez comove por sua autenticidade ao descrever a relação entre dois amigos, um deles desejando apenas sair do país e o outro, moribundo, doente de Aids, porém cheio de vida.

Luiz Zanin Oricchio

11 Agosto 2017 | 15h01

FORTALEZA – Um grande filme pintou no Cine Ceará 2017 – o cubano Últimos Dias em Havana, do mestre Fernando Perez, o maior cineasta contemporâneo da ilha.

Através de um caso pessoal, situado num microcosmo no bairro de Centro Havana, Fernando atinge o universal, através de relações humanas bem traçadas, com seus conflitos, suas esperanças e um entorno social e político bem definido. Enfim, obra de mestre, num festival de bons filmes, mas que não estão no mesmo patamar deste.

O que temos? Uma habitação coletiva, um cortiço para usar a palavra certa, no bairro de Centro Havana. Num desses quartos moram Miguel (Patricio Wood), que sonha ir para Nova York, e Diego (Jorge Martínez), que jaz numa cama, vitimado pela Aids, em fase terminal.


Outros personagens vão se agregando ao duo – uma mulher abandonada pelo marido, uma velha que funciona como referência da vizinhança e ajuda a todos e, sobretudo, uma garota, sobrinha do moribundo e que representa a juventude cubana. Exótica, ela cria bichos, junto com o namorado, e está grávida. Sem meias palavras, pede ao tio que ele deixe o quarto e o terraço como herança, pois não tem para onde ir. Não se dá com a mãe, não se ajusta ao sistema e não pretende deixar o país. Tem de se virar. Será essa personagem que se dirige ao espectador numa comovente sequência em que dá conta do destino de todos os outros e do que resolveu fazer de sua vida.

Como sempre, a câmera de Fernando Perez é precisa. Entra com a familiaridade de sempre na realidade cubana. Sem retoques, a filma também com carinho. É a sua maneira de ser dilacerado, sin perder a ternura jamás, e instalar-se como nenhum outro nessa peculiar dialética cubana entre o ir-se embora e sentir-se exilado, e o ficar, lamentando que a felicidade deve estar em outro lugar no estrangeiro.

É, sem dúvida, o grande filme do festival. Mereceria não apenas os troféus de melhor filme e direção (para Fernando Perez), como também a divisão do prêmio de ator entre os dois protagonistas. Dueto sensacional entre o moribundo cheio de vida (Jorge Martínez) e o homem são porém morto por dentro (Patricio Wood).