Olhar de Cinema. Um rei delirante na conquista da Patagônia
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Olhar de Cinema. Um rei delirante na conquista da Patagônia

Luiz Fernando Zanin Oricchio

13 Junho 2017 | 11h18

CURITIBA – Rey, do chileno Niles Attalah, traz como personagem a figura polêmica do explorador francês que tentou se tornar monarca da Patagônia para nela fundar a utopia da Nova França. Orelie Antoine de Tounens de fato existiu. Foi um advogado e aventureiro do século 19, que se dedicou a conquistar um pedaço de terra americana para nele plantar seus sonhos.

O filme, no entanto, não é uma descrição realista de suas aventuras. Fala delas, porém lhes dá um tom fantasmagórico e delirante, inscrito na própria linguagem cinematográfica empregada. O diretor trabalha às vezes com velhas películas, dando à sua uma aparência antiga, riscada, imperfeita, com som desgastado pelo tempo. Outras, interfere na própria “película”, colorindo-a ou usando outras intervenções.

A própria saga de Orelie comporta essas opções. Ele é visto em meio à selva, guiado por um branco chileno que tem conhecimento apenas aproximativo dos idiomas indígenas. Seus contatos com os nativos tornam-se comédias de equívocos. Além do mais, Orélie enfrenta um processo com o governo chileno quando é acusado de ser na verdade um espião dos franceses, que preparariam uma invasão do Chile.


Há em Orelie algo de Aguirre, o aventureiro retratado por Werner Herzog. São similares os propósitos delirantes, de refundação e purificação de raças e países, na visão desses exploradores já contaminados por uma decadência irreversível. Assim, os europeus cansados encontrariam, no frescor da América, um fator de renovação espiritual. Daí a busca por utopias de pureza. E também por novos territórios e por riquezas. Um belo e inventivo filme.

Murnau

Na imersão Murnau, duas obras-primas na programação de ontem: Aurora e Nosferatu. Sobre o primeiro, François Truffaut referia-se, de maneira indireta, como objeção aos críticos de cultura deficiente. Dizia que recusava que seus filmes fossem criticados por gente que nunca tivesse visto a Aurora, de Murnau. O filme ganhava assim o tom referencial de conhecimento sobre a história do cinema. E de fato. Impressiona o frescor dessa obra quase centenária que, em outras mãos, seria apenas um melodrama amoroso. Se dissermos que fala de um casamento ameaçado por uma femme fatale não lhe faremos justiça. Mas se notarmos o rigor e a invenção formal que, naquela época, e trabalhando na indústria do cinema, Murnau foi capaz de imprimir, ficaremos surpresos. E é impressionante como esse antigo filme ainda se mostra capaz de mexer conosco e com nossos sentimentos.

O mesmo para Nosferatu, que recebeu aplausos no final de uma sessão composta por plateia jovem. Por problemas com direitos comerciais sobre o livro de Bram Stocker, Murnau adapta o nome do filme e também em parte a história clássica. Faz um vampiro ameaçador, porém um tanto frágil, numa história rica de sutilezas e jamais apelativa como são os filmes de terror contemporâneos, turbinados por sangue e sustos. É de uma beleza plácida e aposta mais no clima gótico que nas peripécias da história.

Eventos.

Hoje, a partir das 13h30, no SESC Paço da Liberdade, terá lugar o debate do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema, com participação de Amanda Ouad, Maria do Rosário Caetano e Emanuela Siqueira, com moderação de Neusa Barbosa.

Também hoje, no SESC, a partir das 16h, com participação de Orlando Margarido, será o lançamento do livro da Abraccine Bernardet 80 – Impacto e Influência no Cinema Brasileiro. O livro tem textos de vários críticos enfocando de diversos ângulos o trabalho de Bernardet, que completou 80 anos de atividade e tem marcado, com sua presença versátil e incisiva a cultura cinematográfica brasileira há várias décadas. Autor de clássicos ensaísticos como Brasil em Tempo de Cinema e Cineastas e Imagens do Povo, Bernardet também escreveu roteiros, dirigiu e, faz alguns anos, começou carreira como ator.