Olhar de cinema. O homem-máquina
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Olhar de cinema. O homem-máquina

Luiz Fernando Zanin Oricchio

11 Junho 2017 | 11h03

CURITIBA – Um documentário sobre o trabalho árduo em uma tecelagem na Índia foi o principal destaque da competição de ontem no Olhar de Cinema.

Máquinas, do indiano Rahul Jahin, aposta na força da imagem ao mostrar, sem qualquer diálogo, o cotidiano de operário de uma tecelagem que parece remontar aos tempos da Revolução Industrial. Barulho infernal, calor, movimentos mecânicos que se estendem por 12 horas ao dia (alguns ainda fazem horas extras) são observados por uma câmera bastante inspirada.

Em seguida, entram alguns poucos depoimentos, porém bem incisivos, de operários. Como aquele que conta sua vida. Vem de longe, em trens tão abarrotados que não se consegue dormir e nem comer, em percursos de 36 horas, do interior do país a regiões industrializadas.

Depois dessas viagens enormes, chegam extenuados. E têm de cumprir a carga horária escravista da empresa. Mas ele não se sente explorado. “Ninguém me força, estou aqui por minha própria conta e risco e não existem alternativas. Senão, morremos de fome”. O discurso, claro, é contraditório, porque se não existe alternativa não se pode falar em livre escolha. Mas é assim.

Depois da sessão, Jahin conversou um pouco com o público que, de maneira geral, amou o filme. Disse que já conhecia um pouco esse mundo pois seu avô era dono de uma dessas empresas antiquadas na Índia. Talvez isso tenha facilitado um pouco seu contato com aquela realidade e as pessoas que nela trabalham. A ponto de poder ouvir de um dos operários a pergunta, inevitável. “Você nos entrevista e mostra nosso trabalho, mas o que pode fazer por nós?”

O que o cinema pode fazer pelos explorados? – é a pergunta que explode na tela e vem insistindo desde que imagens em movimento começaram a falar de injustiças sociais. Mas o que poderia fazer o cinema? Ignorá-las, como hoje se pretende?

O outro concorrente, Corpo Estrangeiro, da Tunísia, não agradou tanto. É a história de uma garota, Sumia, que consegue entrar clandestina na França, encontra compatriotas e se emprega na casa de uma mulher de origem árabe que foi casada com um francês. O filme, da diretora Raja Amari, tem qualidades, mas acaba atirando para diversas direções sem conseguir definir um foco narrativo mínimo. Com isso, torna-se dispersivo.

Murnau

Mais dois Murnau na cota de ontem. – duas obras-primas, Fausto e A Última Gargalhada. Depois de rever, na tela grande a este último, fiquei na dúvida. Será que Aurora é mesmo o maior filme de Murnau? Dúvida que vou tirar revendo Aurora amanhã. Em todo caso, a Última Gargalhada, com Emmil Jannings, é fabuloso. A história do porteiro de hotel que perde seu posto porque passou da idade é de grande atualidade nessa nossa época de “reengenharias” e planejamentos empresariais, nos quais o valor do ser humano é nulo. De qualquer forma, seja massacrando o empregado num trabalho extenuante e mal pago, como em Máquinas, seja desfazendo-se dele quando entende que não vale mais mantê-lo, como A Última Gargalhada, o capitalismo revela-se a principal vertente do anti-humanismo. Aliás, todo mundo sabe disso, ou não?