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O sonho acordado de David Lynch

Luiz Zanin Oricchio

22 Outubro 2007 | 08h33

Hoje é a última chance para ver Império dos Sonhos, de David Lynch. A recomendação tem de vir acompanhada de um aviso: não se trata de filme para todos os gostos. À parte a obviedade dessa observação, deve-se lembrar que Lynch é um experimentador. Joga com a narrativa, com as relações lógicas entre acontecimentos e personagens, e também com a textura do filme. Muitos fãs de Lynch estranham que Império dos Sonhos tenha sido feito em digital, o que limita a possibilidade da paleta de cores possível com uma película de 35 milímetros. Mas, vamos nos recordar que esse tipo de pesquisa com vídeo começou lá atrás, em 1980, com o Antonioni de O Mistério de Oberwald. Não chega a ser novidade. Nem chega a ser nova a constatação de que o trabalho com o digital fecha algumas possibilidades e abre outras. São opções. Tanto assim que o próprio Lynch já declarou que não pretende mais filmar com película, tamanha a liberdade que experimentou com o digital.

Dito isso, e o filme? Bem, o que se pode antecipar é que Lynch propõe uma viagem sensorial, na qual importa o sentido (quer dizer, a direção) mas nem tanto o significado. Isso quer dizer que será virtualmente impossível se comportar diante desse ‘objeto’ como fazemos quando alguém nos pede para dizer de que determinado filme ‘fala’ e então nos pomos a contar uma historinha: aconteceu tal e tal coisa, este personagem se apaixona por outro e entra em antagonismo com um terceiro, etc. Nada disso. O filme é como uma instalação; ele nos propõe coisas, e ao contrário das artes visuais, é diacrônico, caminha em determinada direção, mas deixa que o arranjo dos sentidos possíveis seja construído pelo próprio espectador. Essa é a proposta. Tanto assim que, nas entrevistas concedidas no Festival de Veneza, no ano passado, Lynch se mostrou muito lacônico. Se alguém lhe propunha uma interpretação, qualquer uma, ele dizia que estava certa. Se outra pessoa levantava hipótese contrária, ele respondia que também era possível. Nesse momento, o autor desaparece como intérprete da própria obra.

Cabe a nós, portanto, decifrá-la. E, sobretudo, deixarmo-nos levar, nessa viagem fascinante de três horas, por labirintos que são os do sonho ou do próprio inconsciente. Visto sem as amarras da razão, isto é, de nossas expectativas prévias, ele pode ser estimulante, engraçado, irônico, inteligente e, sobretudo, surpreendente – como um objeto surrealista. Sabemos que há uma atriz (Laura Dern), que deve fazer um filme (Império dos Sonhos é também metacinema), mas que esse é um projeto maldito. O que se sugere de Hollywood, esse império interior, é bastante corrosivo. E o que significam esses personagens com máscaras de coelhos que surgem num palco a cada instante? O que você quiser, caro espectador.

Se, apesar de tudo o que se disse de Lynch, a sua praia for outra, dá para recomendar o muito mais linear A Arte das Lágrimas, do dinamarquês Peter Schonau (Memorial da América Latina, 20h40). É um filme que começa como comédia e vai sutilmente mudando de rumo no meio do caminho até se transformar em drama familiar dos mais cabeludos. Como só os nórdicos parecem ter coragem de fazer.

Serviço

Unibanco Arteplex 1: Hoje, 20h10. Cotação: Ótimo