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O Procurado

Luiz Zanin Oricchio

23 Agosto 2008 | 09h46

O Procurado é aquele tipo de filme para ser visto sem qualquer preconceito realista. Ou seja, você tem de aceitar que a trajetória de um projétil pode ser vista a olho nu, que existem atiradores tão fantásticos que podem disparar um tiro em curva, que perseguições de carros tão improváveis possam de fato acontecer. E realmente acontecem, bem…no universo imaginário das histórias em quadrinhos de onde o diretor russo Timur Bekmambetov tira seu material.

O enredo em torno do qual tudo se constrói é ralo e, lido, parece bastante tolo. Existe uma confraria de assassinos que remonta à Idade Média. Matam para manter certo equilíbrio social, é o que se diz. E a coisa passa de pai para filho, como nas antigas corporações de ofício. Assim, um tímido empregado do comércio, Wesley Gibson (James McAvoy), se descobre filho de um desses profissionais. Para preparar-se para o métier, ele receberá treinamento de uma poderosa matadora (Angelina Jolie), chefiada por um tipo misterioso, Sloan (Morgan Freeman). Wesley recebe uma missão, mas no meio do caminho descobre que a coisa não é bem aquilo que pensa, etc. Isso, você descobre por si, ao ver o filme.

Deixando de lado o conteúdo modesto, e abolindo o senso crítico realista, o que se pode ver é um competente filme de ação. Quer dizer, com muito ritmo, velocidade, e uma violência que às vezes beira a crueza – embora pareça coisa de criança comparada àquela que Zé do Caixão põe na tela com seu Encarnação do Demônio. Mas, enfim, Bekmambetov desenha a trama com senso visual apurado, e sentido de pulsação. É aquele tipo de passatempo agradável, sem maiores compromissos, e que preenche o tempo de hora e 50 minutos sem qualquer marca de tédio ou arrependimento.

Claro, deverão surgir por aí análises grandiosas, falando na questão paterna, que seria abordada em subtexto, etc. Que as linhas da tecelagem, nas quais se inscrevem os nomes dos que vão morrer, evocam o mito das Parcas, etc. Bem, se o papel já aceitava tudo, imagine a tela do computador e o poço sem fundo da internet… Todos são livres para interpretar e teorizar à vontade, já que opinião é como ego – todo mundo tem.

Mas, no fundo, nada disso é necessário para curtir esse filme de ação. Em comparação com seus trabalhos anteriores, Guardiães de Noite e Guardiães do Dia, Bekmambetov desta vez acerta a mão, e dentro do que se propõe, uma estetização da violência, que, ainda que crua, seja palatável de modo a não afastar o distinto público. Quanto ao aspecto cinematográfico em si, digamos que Bekmambetov se mostra capaz de mobilizar bastante bem efeitos especiais. Quedas, explosões, corridas de carros, tiros – tudo isso aparece na tela com impacto e vivacidade. O fato de não se poder acreditar em nada disso parece irrelevante.

(Caderno 2, 22/8/08)