‘O Processo’, ou o Brasil que Kafka não viu
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‘O Processo’, ou o Brasil que Kafka não viu

Documentário de Maria Augusta Ramos mostra os bastidores do processo de impeachment sofrido pela presidente Dilma Rousseff em 2016. Premiado no exterior, o filme entra hoje em cartaz em 60 salas em todo Brasil.

Luiz Zanin Oricchio

17 Maio 2018 | 12h48

O título do documentário de Maria Augusta Ramos delimita um campo e faz alusão a uma obra clássica. O Processo diz que vai se restringir ao andamento parlamentar e jurídico que depôs a presidente Dilma Rousseff e que este muito se assemelha ao que descreve Franz Kafka em sua obra famosa.

Desse modo, o filme não toca, pelo menos não diretamente, na concertação de forças que permitiu a deposição de uma presidente que havia recebido 54 milhões de votos nas urnas. Restringe-se ao tortuoso percurso parlamentar e jurídico desenhado para dar ares de legalidade a um julgamento já feito de antemão, a um jogo já jogado antes mesmo de começar. 

Tudo então é teatro, um imenso teatro que incluía o Congresso, o Judiciário, a mídia, empresários, manifestantes pró e contra, e todo o resto da população que atuava como figurante dessa tragédia anunciada.

O filme é um compacto de 130 minutos dos passos que levaram à deposição da presidente reeleita em 2014. Foi montado a partir de mais de 400 horas de gravação disponíveis. Forma um relato coerente e consistente dessa travessia histórica.

Muitas das imagens são conhecidas dos brasileiros, como a sessão da Câmara que permitiu o seguimento do processo, com votos “dedicados à minha mulher, minha família, meu time de futebol” e coisas do gênero. Ou as performances histéricas da advogada Janaína Paschoal. Inclusive aquela em que pede desculpas por algum sofrimento que possa estar causando a Dilma, mas que ela compreenderá, fez isso por seus netos. Netos dela, presidente.

Outras cenas acrescentam sentido ao drama, como as obtidas pela diretora junto à senadora Gleisi Hoffmann, o advogado José Eduardo Cardozo e o senador Lindbergh Farias.

Enfim, não se trata de descrever o que já se sabe. A impressão deixada pelo filme é penosa. Mergulhamos nele com a sensação de estarmos sendo levados por um rio poderoso, que tudo arrasta em sua passagem, indiferente à ação dos homens. Nada poderia deter aquele processo porque, como diz a certa altura Lindbergh Farias, era um jogo de cartas marcadas. Uma encenação para dar legitimidade política e jurídica a algo já definido de antemão e talvez em outras instâncias.

As cenas de abertura e fechamento são dignas de nota. Nas primeiras, as cercas que separavam as torcidas contra e pró Dilma na votação da Câmara pela abertura do impeachment, imagens que falam da sociedade dividida. Nas últimas, nuvens ameaçadoras se formam sobre o Planalto. Nuvens que não se dissiparam, mas se adensam, como se sabe.

O filme, junto com outros, é indispensável para marcar esse momento da História brasileira. Servirá como fonte de compreensão para o olhar, quiçá sereno e imparcial, de historiadores do futuro.  

Depois de estrear em fevereiro no Festival de Berlim, O Processo vem ganhando prêmios e reconhecimento. Entra hoje em cartaz em 60 salas por todo o País. É indispensável. Muito bem estruturado do ponto de vista cinematográfico,  segue a opção documental de Maria Augusta pelo cinema direto, observacional, sem entrevistas. É sóbrio e nada panfletário, embora tenha lado e ponto de vista. Deixa clara a farsa laboriosamente montada para afastar a presidente sob o pretexto inconsistente das “pedaladas fiscais”. Que estas foram apenas uma desculpa para tirar uma presidente indesejada é o mais constrangedor segredo de Polichinelo da história política recente do País. Ninguém, que esteve envolvido, ignora esse fato; ninguém o confessa em público.

O Processo, em seu viés kafkiano, tira esse véu e deixa nuas as engrenagens usadas no ato. É o seu trabalho. Outros filmes visarão aspectos diferentes desse quebra-cabeças que compõe a página mais infeliz da nossa História recente.