O Passado, um filme para o nosso tempo presente
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O Passado, um filme para o nosso tempo presente

Luiz Zanin Oricchio

19 Outubro 2007 | 12h59

gael

Nesta nossa época de culto ao presente contínuo, não deixa de ser interessante observar como se comporta um filme que trata o passado como aquilo que não acaba nunca. O Passado, já se assumindo como tal no título, é baseado no livro do argentino Alan Pauls e fala não apenas de como somos habitados por aquilo que fomos um dia, como afirma também que a separação pode ser apenas uma das etapas de um caso de amor.

Rimini (Gael Garcia Bernal) é o tradutor de inglês e francês que se comporta como um Ulisses moderno. Faz-se como homem pelo relacionamento com três mulheres, um longo percurso para voltar à primeira, Sofia, essa Penélope tão estranha e às vezes muito menos paciente que a personagem da Odisséia. Que se chame Sofia – sabedoria, em grego – é uma alusão, mas talvez também uma ironia. Porque Sofia é tão sábia quanto doida. E carrega com ela um objeto perturbador, que a transtorna após a ruptura: um maço com as fotos que documentam sua existência com Rimini desde a infância, e que não foram divididas com a separação. É um objeto mnemônico, da lembrança, da vida como ela já foi.

Porque O Passado é também um filme da memória. As fotos que trazem o passado para o universo da imagem são tão fascinantes quanto incômodas. Nelas, as pessoas se vêem como foram um dia e já não são. Os traços fisionômicos mudaram pela ação do tempo. Pessoas que estão na imagem já se distanciaram; outras já não mais existem senão sob essa comovente forma de evocação. Por isso as fotos antigas são pungentes e traumáticas, doces e amargas ao mesmo tempo.

E, de certa forma, elas ‘coisificam’ a memória, congelam num instante o fluir do tempo e, por paradoxo, evocam que esse mesmo tempo não pára, pois é devir. O Passado é cheio dessas sugestões implícitas, que passam pelo nome dos personagens, o de Sofia, como já se viu, mas também o do protagonista, Rimini, que, claro, conduz à cidade natal de Federico Fellini, o cineasta da memória por excelência.

Acontece que Fellini banhava seu cinema evocativo em boas doses de ironia, quer dizer temperava a nostalgia com aquilo que a negava, pelo distanciamento. Babenco vai direto ao sentimento, sem defender-se dele, e essa opção está na maneira como filma a sua Argentina natal, como emprega a música, no tom cálido do filme, na intensidade dos atores.

Ao mesmo tempo, nos sentimos diante de uma obra contemporânea, mas também de um dispositivo que evoca algo vivido muitos anos atrás, como um sentimento de perda, um espaço reconhecível porém fora do tempo, como acontece em alguns sonhos. Em muitos sentidos, o tempo de O Passado é o tempo do inconsciente – isto é, um tempo abolido.

Já se andou comparando O Passado com Coração Iluminado, a incursão anterior de Babenco em seu universo argentino. Entre os dois, houve Carandiru, projeto tão diferente de ambos. Nesses dois filmes intimistas, é menos da Argentina real que se fala do que de uma Argentina imaginária, mítica, talvez ela mesma suspensa no tempo, que é o tempo da memória de juventude do seu autor. A Argentina de Babenco está na tela como a casa da infância de Manuel Bandeira no poema, imaterial, suspensa no ar, eterna, com seu ar europeu nos edifícios, nas ruas chuvosas, na maneira como as pessoas se vestem e se falam.

Ora, Babenco é um cineasta brasileiro, ou, pelo menos, um cineasta radicado no Brasil, alguém entre duas culturas, o que não chega a ser mau negócio para um artista ou para um homem. Coração Iluminado é um filme argentino; Carandiru um filme brasileiro, e sobre a miséria social brasileira; O Passado, um filme argentino que comenta, dialeticamente, o Brasil por meio de uma pequena passagem do protagonista por São Paulo. Muda a paisagem, muda a fotografia, muda o tom. O ambiente europeu, onírico, desaparece por instantes para dar lugar à luz crua do realismo, das ruas apinhadas de camelôs, do traço físico diferente e multirracial do povo brasileiro. Nesse momento, O Passado mergulha no presente.

(Estadão, Caderno 2, 18/10/07)