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O Homem do Riquixá

Luiz Fernando Zanin Oricchio

12 Maio 2013 | 21h00

Com seu O Homem do Riquixá, Iroshi Inagaki (1905-1980) ganhou o prêmio principal do Festival de Veneza de 1958. O troféu chamou a atenção para este cineasta, considerado um dos mais prolíficos do cinema japonês. Inagaki fez sucesso nos EUA com O Samurai (1941). Também foi conhecido, no início de sua carreira, por seus filmes de temática social.

O Homem do Riquixá mostra outra vertente de sua obra, a humanista, que não deixa de tocar na questão do abismo de classes da sociedade japonesa no final do século 19, início do início do século 20. O personagem que dá título à obra é Matsu, vivido por Toshiro Mifune. Um parêntese: a presença de Mifune, por si só, já confere interesse a qualquer filme. Ator de aura impressionante, trabalhou com os melhores diretores do seu tempo, a começar por Akira Kurosawa. Com presença física que parece agigantar-se na tela, lembra, guardadas as diferenças, Anthony Quinn, que, pelo físico e expressividade, se amoldava bem a esses papéis do bruto com uma grande alma escondida. Basta lembrar de Zorba, o Grego, e também de Zampanò em A Estrada da Vida, de Fellini.

No caso, Mifune é um puxador de riquixá, mas não deixa a simplicidade da função torná-lo um ser subalterno. É visto como meio louco, e ganha o apelido de “o Selvagem” ao tratar por “você” um poderoso general. Numa sociedade hierarquizada como a japonesa o tratamento nivelado seria uma temeridade. A ousadia faz a fama de Matsu em sua comunidade. Ele é briguento e beberrão. Também gosta de crianças. Tanto assim que cuida do garoto Toshio quando este sofre um acidente. Ganha o reconhecimento da mãe e do pai da criança, este também um militar de alta patente.

Este é o foco da história – a proximidade Matsu com uma família amiga, mas postada em escala social muito superior à sua. A crônica dessa amizade assimétrica atravessa alguns anos, acompanhando o crescimento de Toshio da infância à mocidade, quando vai estudar em outra cidade e prepara-se para as responsabilidades da vida adulta. E então as imposições da hierarquia voltam a se colocar.

Existe um momento em que as classes sociais se aproximam, porque as crianças não têm grande consciência da diferença. Com a idade, a segregação volta a se impor. Milton Nascimento capta esse processo como mestre na comovente canção Morro Velho, na qual o “filho do sinhô” vai estudar na cidade grande e, na volta, pouco liga para seu antigo camarada que “já não brinca, mas trabalha”.

Esse é também o tom, algo melancólico, de O Homem do Riquixá. No entanto, este começa de maneira cômica, com o personagem de Mifune oscilando entre a graça e a desenvoltura física. A nota dominante, porém, será dada da metade para o fim. Mifune passa por todos esses registros com naturalidade. E essa versatilidade, do riso à comoção, também leva o espectador a uma relação de cumplicidade com ele.

O Homem do Riquixá é aquele tipo de filme feito para um ator brilhar, e quando se tem um Toshiro Mifune como protagonista isso não é defeito. Mas a verdade é que Inagaki cria um ambiente cênico perfeito para que Mifune desenvolva suas potencialidades. Filma de maneira sóbria. Ajusta a câmera com muita frequência na altura dos olhos dos personagens, como a mostrar o que aquele filme, em particular, tem a dizer: um homem é um homem, não importa se culto ou analfabeto, se pertencente a uma classe social superior ou inferior. Ama, sofre, vive suas alegrias e sofrimentos. Como todos e no mesmo nível. Mas se alguém pertence um estrato social mais baixo, e ama a alguém de outro mais alto, então o seu sofrimento será muito maior.

O Homem do Riquixá faz parte daquele tipo de cinema social que não ostenta sua condição. Joga muito mais na carta da simpatia pelos humildes (à maneira de Victor Hugo) do que na do panfleto político.