O golpe de 1964, a História e o sono do estudante
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O golpe de 1964, a História e o sono do estudante

Luiz Zanin Oricchio

25 Setembro 2014 | 13h46

Mediei duas mesas no Festival de Brasília. Uma, em homenagem a Eduardo Coutinho, foi um sucesso e atraiu bom público. A outra, Reflexos do Golpe, sobre os filmes que se debruçaram sobre o golpe de 1964, a ditadura e suas sequelas, nem tanto. Havia pouca gente, sobretudo poucos estudantes no auditório da UnB, curiosamente uma universidade invadida durante a ditadura, fato retratado no documentário Barra 68, de Vladimir Carvalho.

Na mesa estavam Tata Amaral e Zelito Viana, aos quais se juntou o secretário de Cultura do Distrito Federal, Hamilton Pereira, que falou de sua (dura) experiência como preso político.

Notei, logo numa das primeiras filas, um estudante que lutava o tempo todo contra o sono enquanto falávamos. Por fim, sucumbiu e tirou uma bela soneca.

Ok, não vamos mistificar as coisas. O aluno podia de fato estar cansado e qualquer um de nós já dormiu em situações semelhantes. Ainda mais naquele horário impróprio, logo depois do almoço, etc. Convenhamos, falar de ditadura, perseguição política, tortura, etc pode não ser o melhor programa para acompanhar a digestão. Ainda assim, achei que seriam temas oportunos para tratar num campus universitário.

Depois do sono, o estudante acordou, e agora tinha uma colega ao lado, que havia chegado mais tarde. Os dois começaram a conversar animadamente (a ponto de atrapalhar a mesa) e, obviamente, o tema da conversação não era o mesmo sobre o qual falávamos. Estavam felizes da vida, o que é compreensível. E, claro, a colega era, para o estudante, objeto de interesse muito mais forte do que os velhos temas de que tratávamos.

Compreendo tudo isso e não recrimino ninguém. Acho que o presente e as forças da vida devem mesmo se impor. De modo que a garota ao lado representava de fato para o rapaz um foco de interesse muito mais poderoso que aquela conversa toda sobre pau-de-arara, Doi-Codi, guerrilha, frei Tito e etc.

Mas, no fundo, fiquei um tanto preocupado. Isso porque, se observarmos bem, a “obra da ditadura” continua em nosso presente e pede ainda muito trabalho para ser desconstruída ou demolida. Haja vista as dificuldades e resistências que a Comissão da Verdade tem experimentado para colocar à luz o horror acontecido naqueles anos.

Nestes 50 anos de golpe, houve muita reflexão sobre a ditadura e seus efeitos nefastos, e mesmo sobre os crimes cometidos. Filmes, livros, estudos, etc. Mas sinto que, para as gerações mais jovens, aquele tempo parece cada vez mais coisa do século passado (como de fato é), e que não tem mais nada a ver com o presente (mas isto é um equívoco).

Pelas viagens que fiz pelo continente, e por conversas, leituras e filmes, me parece que a memória dos seus traumas históricos passados encontra-se muito mais enraizada em países como Argentina, Uruguai e Chile, por exemplo, do que no Brasil. Deve haver um dado cultural para explicar essa maior permanência da memória histórica em nossos vizinhos, mas não é aqui o espaço para discuti-lo. Somos o que somos.

Nós, que passamos pela ditadura, não a esqueceremos jamais, porque foi um corte em nossas vidas, um trauma, e não tem plástica que dê jeito nesse tipo de cicatriz. Ficará conosco enquanto vivermos. É absolutamente normal que gente nascida após a redemocratização não ponha a mesma carga emocional que nós depositamos nesses fatos. Para nós, foi algo vivido. Para eles, um conhecimento histórico, de segunda mão. Ainda mais se não tiveram parentes, pai e mãe, irmãos mais velhos, diretamente envolvidos nos fatos ou vítimas da violência.

Tudo isso é natural. Há um esmaecimento próprio do tempo, que apenas a consciência histórica pode atenuar. Mas a minha preocupação é justamente com a dissipação veloz dessa consciência histórica que é, entre outras coisas, a capacidade de estabelecer laços entre fatos do presente e do passado.

Por exemplo, a truculência policial nas manifestações de junho de 2013 precisa ser entendida à luz da autonomia que a polícia ganhou em relação à sociedade civil nos anos da ditadura. Presos comuns são hoje torturados como eram os presos políticos nos anos de chumbo. Não se compreende uma coisa sem a outra. Outro aspecto: as desigualdades sociais ainda gritantes só se tornaram possíveis porque a ditadura teve 20 anos para promover uma modernização conservadora que preservava privilégios e criminalizava lutas sociais. E assim por diante. É preciso olhar para o passado para entender o presente. Simples assim.

Talvez tenha havido uma falha de transmissão dessa cultura política de uma geração a outra. Talvez o tema político (ou histórico) esteja mesmo em baixa, pois “a política” é confundida com “os políticos”.  Não se trata da mesma coisa, mas é necessária certa consciência sociológica para fazer a diferença. Pode estar presente aí também algum dado de ordem estrutural, que nos impele no Brasil a um eterno recomeçar e nos impede de voltar a cabeça para trás para observar o que aconteceu antes da nossa ilustre chegada ao mundo.

Seja como for, essa indiferença, se ela existir (é uma hipótese) me parece preocupante. Porque, repito, a obra de desfazer a ditadura ainda não terminou. E, como não estará acabada quando a última testemunha ocular dos anos de chumbo já não estiver mais aqui, será preciso o concurso das novas gerações para terminá-la.

É a História que dá continuidade às gerações e aos seus trabalhos.