O filme do Bispo, os números e a obra
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O filme do Bispo, os números e a obra

Números inflados de uma obra cinematográfica primária podem induzir a confusões nas pesquisas sobre o cinema brasileiro da nossa época

Luiz Zanin Oricchio

03 Abril 2018 | 16h29

Petronio Gontijo interpreta o bispo Edir Macedo

 

Minha experiência com Nada a Perder foi a seguinte:

Fomos a um cinema de shopping e na bilheteria nos avisaram: lotação esgotada, só restavam alguns assentos, embaixo da tela. Aceitamos. Na entrada da sala, um rapaz nos ofertou um lencinho com uma oração e nos preveniu que depois nos explicariam o que significava aquilo.

Lá dentro, uma meia dúzia de gatos pingados. Sentamos em nossos lugares e os trailers começaram.

Ao iniciar a sessão, contamos 41 pessoas dentro de uma sala com capacidade de 222 lugares. E assim ficou até o final.

Pelo que vi de reportagens e depoimentos a situação tem sido mais ou menos a mesma na maior parte dos cinemas: a sala aparece como lotada, mas na hora do filme há muito pouca gente lá dentro.

Os distribuidores e exibidores estão pouco se lixando. Vendem por lote, a preço de meia entrada. Se o público vai ou não vai, é outra história. A Igreja está na dela e ignora a discrepância brutal entre ingressos vendidos e afluência do público.

Mas esta deveria ser uma preocupação de quem mexe com números de cinema no país – seja a Ancine, sejam entidades privadas.

Afinal, números não são neutros. Oferecem uma interpretação que, no caso, não condiz com a realidade.

Dessa forma, se Nada a Perder, o filme sobre a vida do bispo Edir Macedo, encomendado pelo próprio, aparecer como um campeão de bilheteria, isso será uma mentira. Uma fraude.

Pior ainda se ficar marcado na história do cinema brasileiro como o recordista de público em 2018, como se anuncia. Se algum incauto pesquisador do futuro acreditar nesta maluquice, poderá seguir uma pista falsa e detectar, a partir desse sucesso fake, uma tendência de público que nunca existiu.

Quanto ao filme em si, dirigido por Alexandre Avancini, é pouco menos que lamentável. Santifica a figura do dono da Igreja Universal do Reino de Deus e faz de sua trajetória a saga de alguém que se afirma lutando contra tudo e contra todos. A saga do herói.  

Na escola, o pequeno Edir sofria bullying. Já jovem pastor ascendente, é desencorajado por seu superior, um tipo invejoso e destrutivo. Ao longo da carreira deverá enfrentar toda uma série de vilões – a religião oficial (católica), políticos, empresários, policiais, todos temerosos da sua ascensão e empenhados em dificultá-la.

A “estética” é tosca. O tom é de melodrama. O excesso de música é embrutecedor. Diálogos primários. Não há nuances, ambiguidades, fraquezas, qualquer sinal de humanidade nessa carreira de sucesso invejável. Ficamos nos perguntando como tal acumulação de poder e dinheiro pôde se dar de uma hora para outra. Mas teremos de buscar a resposta em outras fontes, porque isso o filme não nos diz.

Entre tantas cenas disponíveis para uma antologia negativa, a mais ridícula é a de um exorcismo praticado em uma mulher “possuída”.  

No final, aparece na tela a própria figura de Edir Macedo, recitando a prece escrita no lencinho que recebemos na entrada.

Em seguida, uma pequena cena que nos avisa de que a segunda parte da história já vem por aí, quando a Igreja Universal, mais uma vez, deverá enfrentar seus inimigos e, invariavelmente, sair vencedora.

O comércio é livre, mas é constrangedor para cinemas sérios programar essa peça primária de proselitismo religioso, que demoniza o catolicismo,  ridiculariza os cultos afro-brasileiros e oferece ao público uma visão de mundo pré-iluminista. Para dizer o mínimo.