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AéCIO

O figurante de Glauber Rocha e as manifestações

Política é um paradoxo. Diz respeito a todos, mas não é para amadores e principiantes. Estes são, no máximo, massa de manobra. Como já disse alguém, entram na história como figurantes de um filme de Glauber Rocha, sem entender patavinas do enredo de que participam.

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Luiz Zanin

14 Março 2016 | 12h05

A "voz do povo" em Terra em Transe

A “voz do povo” em Terra em Transe

 

Há uma opacidade na ação política. As multidões que foram às ruas domingo sabiam contra quem estavam protestando. Sabiam quem desejam expelir do poder. Mas esta é apenas metade da equação. Quando se tira alguém do poder, coloca-se outro alguém (outro grupo) em seu lugar. Não existe vácuo em política. Quem as multidões colocariam no lugar de Dilma?

É provável que não saibam. Se Aécio, Alckmin e Martha foram hostilizados, isso não quer dizer que não votariam neles nas eleições (na de prefeito, este ano), nas presidenciais, sabe-se lá quando. As reações indicam apenas uma leve disposição da palavra de ordem “que se vayan todos”. Frase bonita, mas carente de sentido quando vista de perto. Não são todos que se vão, mesmo nas piores crises. E, à medida que alguns são afastados, outros os substituem. Nem melhores e nem piores. Outros, apenas isso.

Na ressaca desta segunda, encontrei pouco para ler. Gosto de análise, não de ufanismo ou propaganda ideológica, pura e simples. Entre as colunas, vale a de José Roberto Toledo, no Estadão. Ele escreve que Dilma está sendo fritada não nas ruas, mas no acordo que se tece entre PSDB e PMDB. A Lava Jato avança e, se for minimamente republicana, é questão de tempo para atingir também os caciques desses partidos, pois se sabe que as relações entre partidos e empreiteiras são democraticamente promíscuas. A ideia seria acelerar o impeachment de modo a oferecer as cabeças de Dilma, Lula e o PT em troca de uma trégua. Sem a pressão da opinião pública, e da mídia, a Lava Jato perderia ímpeto e outras cabeças seriam salvas. Serão os próximos governantes, gostem as ruas ou não.

A análise faz sentido. A classe política pensa em sua sobrevivência e joga cargas ao mar para salvar o navio. Ou, se preferem esta outra metáfora, sacrificam bois em nome da travessia da manada.

Talvez nada disso ocorra a quem vestiu a camisa da CBF, pegou a família e o cachorrinho e foi para a Avenida Paulista exercer sua “obrigação cívica”. Há algo de catártico na multidão. Sei disso. Sou veterano de muitas passeatas, inclusive daquela pelas Diretas-Já, que, segundo o DataFolha, foi superada por esta, de domingo. Talvez o espírito entre as duas fosse diferente. Naquela, estávamos enterrando uma ditadura. Nesta, quer-se extinguir um partido político, e, em especial, dois de seus líderes. Lula, o seu emblema maior, e Dilma, presidente eleita. O pretexto – justo – é a luta contra a corrupção. Nenhuma pessoa de bem pode ser a favor da corrupção. Mas esta é apenas a espuma. Há uma luta renhida pelo poder e as ruas podem somente oferecer sua força a um dos lados em combate. Por isso seria conveniente não alimentar muitas ilusões. As pessoas que foram às ruas podem guardar suas selfies, mostrá-las aos amigos, compartilhá-las nas redes sociais e sentirem-se heroínas de um momento histórico. No entanto, os caminhos do país, e seu futuro, estão sendo decididos em outras esferas.

Num dos meus textos políticos preferidos, o prefácio de Sinais (Ed. Martins Fontes), Merleau-Ponty escreve: “Em filosofia, o caminho pode ser difícil, mas temos certeza de que cada passo torna outros possíveis. Em política, temos a desencorajadora impressão de um caminho sempre por refazer”.

Não existem conquistas definitivas e sempre o que se conseguiu pode ser desfeito no momento seguinte. Olhamos para a política e, se nos fiarmos apenas em sua aparência, estaremos seguindo fantasmas. Tancredo Neves, que não era filósofo, mas era esperto, dizia que política é nuvem. Você olha, está de um jeito. Olha dali a pouco, e já mudou. A luta política se dá no escuro. É luta entre sombras, difícil de decifrar. Às vezes nem sabemos quem são os contendores. E os momentos que nos parecem mais claros talvez sejam os que oferecem melhores oportunidades de engano.

Política é um paradoxo. Diz respeito a todos, mas não é para amadores e principiantes. Estes são, no máximo, massa de manobra. Como já disse alguém, entram na história como figurantes de um filme de Glauber Rocha, sem entender patavinas do enredo de que participam.

 

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