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O fator humano

Luiz Zanin Oricchio

05 Agosto 2008 | 12h46

Não é por nada que os “professores” costumam impingir aos jogadores as manjadíssimas palestras motivacionais ou de auto-ajuda. Dizem que são aquele algo a mais, que distingue um mero bom treinador, versado em táticas e estratégias, daquele alquimista capaz de extrair de cada um o máximo de suas possibilidades. Pode até ser, o que não aumenta a minha simpatia por esse tipo de discurso, chegado demais ao fascista para o meu gosto. Agora, a importância que ganharam tem a ver com algo mais próximo da realidade: o papel fundamental que os fatores psicológicos têm em todas as atividades humanas, nas competitivas em especial. Boleiro motivado, com brilho nos olhos, rende muito mais, diria o Conselheiro Acácio, o prodígio das obviedades.

Digo isso porque não consigo dissociar a melhora de rendimento de Valdivia e a bronca pública que levou de Vanderlei Luxemburgo. Há tempos o Mago não tirava um mísero coelhinho da cartola. Na quarta-feira, saiu bravo ao ser substituído no jogo contra o Flamengo. Não ficou no banco torcendo pelos companheiros, como manda a ética. Bateu ponto e foi-se. O professor não gostou, e gastou o verbo em entrevista. Disse que, se era para ser desse jeito, o melhor era mesmo ele rescindir contrato, procurar sua turma e ir logo para a Europa.

Fiquei intrigado com o discurso. Mesmo no ambiente meio rude do futebol, as palavras costumam ser medidas, cheias de eufemismos e não-me-toques. Nesse caso, não. Luxa deu um tapa em cima da mesa. Em público, ao vivo, em cores.

Surtiu efeito. No domingo, contra o Ipatinga, Valdivia esteve irreconhecível em relação às últimas partidas. Parecia reencontrar-se com o jogador decisivo que foi durante o Campeonato Paulista. Antes mesmo do jogo ele já havia se desculpado e admitido que andava com a cabeça nas especulações sobre sua venda. Ao que parece, o tranco de Luxa (uma espécie de terapia no estilo do Analista de Bagé, personagem de Luis Fernando Verissimo) recolocou o chileno em seu centro. Que deveria ser o eixo mental de qualquer boleiro, e tão óbvio que é digno do mesmo Conselheiro Acácio acima citado: se ele sonha, como todos sonham, com uma transferência em euros, é preciso, primeiro, mostrar futebol por aqui. Em reais.

Esse é o fator humano de uma atividade tão mercantilizada e especulativa. Por mais que um atleta esteja cercado de compromissos comerciais, empresários, lucro e badalações, se ele não tiver aquele “plus”, aquele algo a mais, que vem de dentro de si, do âmago do seu ser, não conseguirá exibir suas melhores possibilidades.

Dinheiro é importante, mas não é tudo. Fama pode ser um afrodisíaco, embora cobre preço exorbitante. Ser tratado como grão-senhor, sobretudo para quem em geral veio da pobreza, deve ser muito recompensador. Agora, se o sujeito não consegue se reencontrar com a essência da sua arte, se não se recorda de quando era um menino anônimo e jogava apenas pelo prazer, se não se mostra capaz de empenhar o último suspiro na disputa de uma bola, então será incapaz de reeditar as qualidades que o levaram a ser rico, famoso e respeitável. Terá se extraviado de si mesmo.

Por isso são valorizados, e cada vez mais, técnicos como Luxemburgo e Felipão, que conseguem compreender a psicologia dos boleiros e cutucá-los na hora certa e da maneira correta. Ao contrário do que se pensa, não é o amadorismo que está matando o futebol mas o excesso de profissionalismo. O segredo é despertar em cada profissional o amador que existe em seu coração. E fazê-lo trabalhar em benefício do grupo.

(Coluna Boleiros, 5/8/08)