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O equilibrista sem medo da contradição

Luiz Zanin Oricchio

02 Março 2009 | 19h18

Viver Sua Música é um livro de difícil classificação. Memórias? Sim. Relato de viagens? Também. Reflexões sobre a música? Sem dúvida. Se Gilberto Mendes mantivesse um blog, talvez se comportasse desse jeito mesmo. Pulando de um assunto a outro, encadeando temas, refletindo, polemizando, às vezes consigo mesmo. Escreveu um livro. Belo livro, aliás, e tão parecido com sua música – heteróclito, criativo, nada dogmático.

É o que há de mais encantador neste Viver Sua Música – Com Stravinsky em Meus Ouvidos, Rumo à Avenida Nevskiy: a capacidade de equilibrar-se, com toda a elegância, sobre a corda bamba da contradição. Gilberto Mendes não parece ter medo do contraditório. Pelo contrário. Como destaca João Marcos Coelho, colaborador do Estado, em seu prefácio, Gilberto ama a contradição: “Resolvi conviver com a contradição. Fica legal não resolvê-la.” É verdade. Por exemplo, como ouvinte, é mais do que eclético. Ama a música para cinema, que compositores eruditos mais rígidos tendem a considerar como música de segunda, ou terceira categoria. Disse que ficou encantado ao ouvir a trilha de Antoine Duhamel ao rever Beijos Proibidos, de François Truffaut. Também cita com admiração compositores populares como Tom Jobim, Noel Rosa, Caetano Veloso.

Lendo tudo isso, ficamos tentados a pensar que Gilberto Mendes é daqueles que pregam a abolição completa das fronteiras entre o popular e o erudito. É o grande clichê que anda por aí e está na moda. Não existe fronteira. Existe a música. E só o que se pode separar é a boa música da música ruim. Ponto e fim da discussão. Pois bem, linhas depois ficamos sabendo que Gilberto abomina essa ideia da abolição de fronteiras. Acha de um populismo gratuito. “Coisa da mídia, que gosta de igualar tudo”, escreve. Nota que faz parte do marketing da música popular e descobre, atrás dessa tentativa de extinção das diferenças, um enorme preconceito contra a música erudita: “(Acham)…que a música erudita é uma coisa chata. Só não será tão chata se for semelhante à música popular, se tiver alguma relação com ela. Coisa impossível, porque tem uma pedra no meio do caminho. E aquele abismo, que separa as duas músicas.”

Ora, o que acontece é que, ao longo do livro, esse abismo não cessa de ser atravessado, de lado a lado – e não apenas pelo gosto errático do compositor. É que Gilberto Mendes se instala na música, e a vive de maneira tão completa que não consegue ignorá-la em toda a sua diversidade de experiências e registros, que vão do tonalismo mais banal à neue musik que, em tese, seria sua referência mais forte. Gilberto pode ser um fino escultor de estruturas, de formas e módulos abstratos; mas, ao mesmo tempo, confessa que os muito esotéricos que o perdoem, mas a melodia é fundamental.

Gilberto compreende essa contradição perfeitamente. Diz mesmo que a música nova darmstadtiana tem seu ponto fraco exatamente em seu ponto forte, naquilo em que ela inova e contribui para o avanço da música: “a não-periodicidade, o não-melodismo, isto é, a não-repetição, a antidiscursividade melódica.” Vai além e fala do seu absoluto racionalismo, seu materialismo obstinado: a nova música não define uma melodia. Mas acontece que a melodia e o ritmo “são elementos básicos da comunicação musical coletiva”. Por isso, ele sabe, Beethoven é popular.

A nova música pretende um máximo de informação e um mínimo de redundância. É obra aberta, no sentido estabelecido por Umberto Eco em sua obra fundamental. Nesses casos, a comunicação é um preço a pagar. Às vezes Gilberto Mendes acha que esse é um preço a pagar pela originalidade. Mas em outras, admite que a música não pode se afastar por completo do seu público. É um dilema. Mais um.

Outro ponto: Gilberto Mendes estava, junto com Willy Corrêa de Oliveira, Rogério Duprat e outros, na polêmica contra os compositores nacionalistas como Lorenzo Fernandes, Camargo Guarnieri e Francisco Mignone. No entanto, é um cultor do maior deles, Heitor Villa-Lobos e, em parágrafos surpreendentes, em que elogia a grande obra deixada por Villa, tenta protegê-lo da própria companhia dos nacionalistas, vizinhança que tenderia a empobrecer o seu legado. Villa não foi grande porque utilizou temas populares em algumas de suas obras. Foi grande porque incorporou esses elementos em uma estrutura sólida e original. Não são os elementos componentes que contam em uma obra, lembra Gilberto, mas a linguagem dessa obra.

O fato é que Gilberto Mendes consegue driblar a dificuldade de comunicação inerente a toda arte nova por uma via das mais inteligentes – o exercício da brincadeira levada a sério. Esse aspecto lúdico é o que faz a popularidade de duas de suas obras mais conhecidas – Beba Coca-Cola e Santos Football Music. A primeira peça, que ele define com um “rap polifônico”, foi executada por corais dos cinco continentes. Santos, homenagem ao grande time de Pelé & Coutinho dos anos 60, consegue a proeza de colocar um jogo de futebol dentro de uma sala de concerto – e com torcida e tudo. É preciso muita arte e engenho para equilibrar esses elementos e deixá-los no quadro, ainda que expandido, daquilo que hoje entendemos por música.

Gilberto é mesmo esse equilibrista do impossível. A chave para manter intactas e operantes tantas contradições internas, ele nos oferece no livro. Olhando para a própria obra, ele pode afirmar que não é um compositor, mas pelo menos três: o vanguardista de Santos Football Music, Beba Coca-Cola, Asthmatour e nascemorre. O clássico moderno que compôs Vila Socó Meu Amor e Pour Eliane. O popular de Salada de Frutas, Revisitação e A Festa. Mais ainda: Gilberto combina com frequência esses três compositores gerando um quarto no interior de uma mesma obra.

Dessa conversa entre heterônimos saiu esse livro delicioso, e tão revelador.

Trecho

Que posso fazer? Meu lado musical popular e romântico às vezes vem à tona, quando surge uma oportunidade. E eu deixo, não me policio. Gosto de gostar de tudo, de viver a música em toda a sua plenitude de significados. Me proibir, por razões ideológicas de grupo, de gostar de uma coisa que na verdade eu gosto, jamais! A vida é uma só, vamos aproveitá-la. Não quero estar preso a nenhuma limitação, como a daquelas seitas musicais voltadas somente ao jazz, ou à ópera, à música eletrônica, de vanguarda. Minha escola de valores é aberta a todo tipo de manifestações musicais, das Estruturas de Boulez àquele famoso e caramelado concerto para piano e orquestra de Rachmaninof, da enigmática transcendência de certos momentos da Flauta Mágica e do Don Giovanni, de Mozart, ao desalento nostálgico de João Ninguém, de Noel Rosa, cantado por Aracy de Almeida. E se possuo tal magnitude de percepção e referencial musical, me permito ser cartesiano: gosto, logo é bom.

Cronologia

1922

Gilberto Mendes nasce em Santos, no litoral de São Paulo. A cidade seria, ao longo dos anos, tema de diversas de suas obras e sede do Festival Música Nova.

1940

Abandona o curso de Direito e, de volta a Santos, entra para o conservatório, onde estuda com a pianista Antonietta Rudge. Desiste do piano e passa a se dedicar à composição de maneira autodidata.

1962

Viaja pela primeira vez a Darmstadt, na Alemanha, berço da “neue musik” (música nova). Para lá, convergia a nata da composição mundial, interessada nas pesquisas de vanguarda de autores como Stockhausen e Pierre Boulez.

1962

Cria no Brasil o Festival Música Nova, inspirado no evento europeu e dedicado à divulgação da nova produção musical brasileira e também internacional.

1963

Com Damiano Cozzella, Rogério Duprat, Régis Duprat, Sandino Hohagen, Júlio Medaglia, Willy Correia de Oliveira e Alexandre Pascoal, assina o Manifesto Música Nova. O documento, entre outros

itens, defendia o compromisso com o atual, a valorização da realidade da época, a releitura do passado como combustível para o futuro, a educação como meio de preparar novas gerações capazes de se “encontrar” em meio à indústria cultural. De certa forma, o texto era uma resposta à Carta Aberta aos Músicos do Brasil, assinada pelos nacionalistas. Para eles, a utilização do folclore e das manifestações populares seria a única possibilidade de criação de uma música erudita de caráter essencialmente nacional. Durante décadas, a composição brasileira viveria a oposição entre essas duas correntes.

1978

Viaja para os Estados Unidos, onde dá aulas na Universidade do Wisconsin. Em seguida, assume o posto de Tinker Visiting Professor, na Universidade do Texas, posição já ocupada antes por Jorge Luis Borges e Haroldo de Campos.

1994

Lança seu primeiro livro, Uma Odisseia Musical – Dos Mares do Sul à Elegância Pop/Art Déco (Edusp), biografia utilizada como tese de doutoramento na Universidade de São Paulo, onde dava aulas.

2003

Recebe o título de Cidadão Emérito de Santos; no ano seguinte, recebe do presidente Lula a Ordem do Mérito Cultural, na classe de comendador, do Ministério da Cultura.

(Cultura, 1/3/09)