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O deus que não joga dados e a morte de Stephen Hawking

Basta olhar para um céu estrelado e se perguntar o que é aquilo tudo. A Física nada mais é que a acumulação milenar de perguntas vindas do espanto diante do Cosmos. Dos pré-socráticos aos modernos cientistas, elite da qual Stephen Hawking era talvez a figura mais reluzente e midiática.

Luiz Zanin Oricchio

14 Março 2018 | 15h02

 

Anos atrás tive uma conversa com Ruy Guerra no Bar Amarelinho e ele me disse: “na ficção atual não existe nada de tão interessante quanto a literatura científica”.

Lembrei disso quando soube da morte do físico Stephen Hawking, sem dúvida uma das figuras mais incríveis dessa nossa era, tão pobre em personalidades notáveis.   

Como todo mundo, li na época Breve História do Tempo e me lembro do estímulo intelectual que significou aquele invulgar livrinho de divulgação científica.

Invulgar porque escrito pelo próprio cientista. E também porque desvendava, a nós leigos, dimensões do universo das quais não suspeitávamos. Ou que conhecíamos mal e apenas de ouvir falar. Cordas, supercordas, buracos negros…Tudo parecia produto da mais imaginativa literatura fantástica. E, no entanto, saía da mente de cientistas respeitáveis, como Hawking, que tinham de amparar seus voos de invenção em severas equações matemáticas e dados observacionais.

O rigor do método científico. De certa forma, a Física avançada o transgride, pelo menos em algum momento. Einstein imaginou coisas que pareciam delirantes e só puderam ser comprovadas muito tempo depois. Como uma célebre observação de um eclipse em Sobral, no Ceará, em 1919,  que provou o efeito de curvatura sobre os raios de luz, produzindo desvios de observação de estrelas distantes quando a luz passava pelo campo gravitacional do sol. A física avança com fantasias geniais como esta.

Por falar em livros de divulgação escritos pelo próprio cientista, me lembro de outro livrinho que comprei num sebo em Paris, no qual um Einstein super didático explicava com clareza solar a sua Teoria da Relatividade. Aquela altíssima especulação do espírito humano parecia simples como um dois mais dois igual a quatro.

Ou cinco. Pois, como se sabe, o desenvolvimento da Física foi além de Einstein e, de certa forma, o superou. Refiro-me à física quântica (nada a ver com esses oportunistas livros de auto-ajuda que piratearam o termo) e seus princípios de incerteza, como o de Heisenberg.

Acredito que muita especulação literária e filosófica tenha advindo da simples afirmação de que não se pode determinar ao mesmo tempo a posição e a velocidade de um elétron. É como se a matéria, em seu âmago, se recusasse a ser completamente conhecida e detectada. Essa indeterminação, digamos assim, estrutural, passou a comprometer o valor de verdade absoluta e a possibilidade do conhecimento total. Introduziu um relativismo que, ao que parece, não satisfazia ao criador da Teoria da Relatividade.

Merleau-Ponty tem um ensaio antológico sobre o assunto, no qual sustenta que Einstein era, no fundo, um espírito clássico. Acreditava que as equações que escrevia descreviam de forma perfeita o Universo.

Einstein implicava com esse universo probabilístico introduzido pela mecânica quântica e, por isso, cunhou a frase célebre: “Deus não joga dados”.

Mas talvez jogue e tudo o que veio depois mostrava um universo imprevisível, cheio de caprichos e paradoxos. Um universo em expansão, que parecia saído da pena de um escritor surrealista e não de cientistas tributários da lógica.

Há mesmo algo de fabuloso em tudo isso, o que potencializa a nossa imaginação, mesmo que não sejamos familiarizados com o cálculo integral ou a tecnologia dos rádio-telescópios.

Basta olhar para um céu estrelado e se perguntar o que é tudo aquilo e começar a indagar. A física nada mais é do que a acumulação milenar de todas essas perguntas vindas do espanto do homem diante do Cosmos. Dos pré-socráticos aos modernos cientistas, elite da qual Hawking era talvez a figura mais reluzente e midiática.

Tudo o que descobriu e escreveu será agora posto em perspectiva diante da ciência. Mas, claro, sua figura e o fardo que teve de carregar o transformaram num ícone da nossa época. O cérebro genial encerrado num corpo imóvel e que, no entanto, não o dominava. Movia-se na cadeira de rodas preparada para ele, com controles especiais. “Falava” com voz artificial e de sotaque norte-americano, que ele articulava com os poucos movimentos de mão de que ainda dispunha. Pesquisou, escreveu, ensinou, casou duas vezes, teve três filhos, participou de programas e filmes e foi personagem em um deles – A Teoria de Tudo. O ator que o representou, Eddie Redmayne, levou o Oscar pelo papel. Hawking tinha um perfil no Facebook e, na época do Oscar, colocou posts dizendo que ia torcer por Redmayne. Comemorou a vitória e tirou fotos com o ator.

Num dos obituários, leio que Hawking não ganhou o “Oscar” de sua categoria, o Nobel de Física, porque sua teoria dos buracos negros ainda não pôde ser comprovada experimentalmente. Para Hawking, os buracos negros, ao contrário do que prevêem as teorias, não seriam desprovidos por completo de energia. Possuiriam uma espécie de energia residual, que iria se esgotando ao longo do tempo (um tempo próximo ao infinito) até entrarem em colapso.

Como duvidar que o Ruy Guerra tenha razão?

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