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O Desejo da Minha Alma

Luiz Zanin Oricchio

26 Maio 2015 | 21h46

 

Em sua estreia em longas-metragens, Masakazu Sugita dirige como veterano. Com mão segura, conduz um intenso drama em O Desejo da Minha Alma, colocando em cena os mais difíceis de todos os personagens, as crianças. Na verdade, um casal de irmãos. Ela, uma pré-adolescente de 12 anos, ele, um menino de cinco.Eles acabam de perder os pais num terremoto. O menorzinho ainda não sabe. A irmã, sim. E se sentirá responsável pelo irmão.

O filme é todo construído em tons menores, discretos como se supõe mandar a cultura japonesa. Cinéfilos estão habituados a esse tom e a esse ritmo. Eles remetem a Ozu, o mestre dos mestres, ou, mais recentemente, ao ótimo Kore-Eda. Atento aos detalhes, à sugestão das imagens, Sugita bebe nessas fontes. E tira delas um filme comovente que não precisa ser histriônico para emocionar. Pelo contrário. Encontra na discrição o caminho mais justo para chegar à subjetividade do espectador.

A história se constrói em poucas pinceladas de drama. Vemos a cena em que a garota Haruna (Ayane Ohmori) tenta desenterrar alguma coisa dos escombros. Está ferida, mas escapa. Ela e o irmão. Há a cerimônia funerária dos pais e, em seguida, eles seguem com tios que moram em outra parte do país, na ilha de Kyushu. Serão adotados, terão de mudar de escola, etc. A tia é só desvelo em relação aos órfãos, mas, como se sabe, mesmo em meio à caridade os conflitos podem surgir. Em especial, quando existem ciúmes em jogo.


Quer dizer, quase não há uma história propriamente dita, mas a descrição de uma situação bastante dramática (a partir de um evento trágico), envolvendo duas crianças. Sugita põe sua atenção no processo sugestivo possibilitado pelo cinema para trabalhar com os sentimentos. Os planos são longos, como já se disse. Sua duração não é arbitrária. Dá-se em função do tempo necessário para o sentimento “respirar”. Por exemplo, na saída do crematório, após a cerimônia, a câmera acompanha os personagens à distância, saindo do recinto numa atmosfera chuvosa, sob guarda-chuvas, em busca dos seus carros. Tudo é acompanhado em silêncio. Mesmo a saída dos automóveis, um a um, na triste fila que caracteriza os enterros. Em outra cena, os dois irmãos seguem por uma estrada e são acompanhados pela câmera até dobrarem a curva e sumirem de vista. A pressa ocidental não cabe nesse tipo de linguagem.

A ânsia (vazia) contemporânea, tem de ser contrariada por esse tipo de cinema, que age, por assim dizer, a contrapelo da nossa frenética presença no mundo. Por uma vez, neste mundo em que tudo é para ontem, em que tudo é também provisório e descartável, há um filme em que toma cuidado com a questão do tempo. E este, o tempo, não é o menor dos personagens deste drama intimista.

O foco, no entanto, fica sobre Haruna, a personagem de Ayane Ohmori). A garota é extraordinária, além de muito bonita. Tem um rosto marcante. E, com ele, consegue modular todo o sentimento despertado pela morte dos pais. Mas, também, o que é mais difícil, o peso da responsabilidade que sente em relação ao irmão mais novo. Ela entende que deve poupá-lo da verdade e o menino a todo instante lhe pergunta quando, afinal, os pais voltarão. Esse traço da responsabilidade, também tão oriental, é expresso não tanto com palavras, mas com gestos e movimentos faciais. Quer dizer, é dramatizado e não explicitado.

O Desejo da Minha Alma, é, desse modo, um filme extemporâneo. Numa época de correria e trepidação, à la Mad Max, aposta nessa interiorização de personagens. Quer, como diz o título em português, ler alguma coisa que vem dessa entidade indefinível chamada alma. É triste. Mas, em meio a tanta brutalidade, é de uma delicadeza que faz um bem danado

Cotação: ÓTIMO

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