O cinema black bloc de ‘Jogo das Decapitações’
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O cinema black bloc de ‘Jogo das Decapitações’

Luiz Zanin Oricchio

20 Junho 2014 | 14h07

Jogo das Decapitações é a mais nova provocação de Sérgio Bianchi. Diretor conhecido por filmes polêmicos como Cronicamente Inviável, Quanto Vale ou É por Quilo? e Os Inquilino, desta vez Bianchi dirige suas armas contra a esquerda que chegou ao poder e perdeu de vista seus ideais de juventude. Ou, pior que perder o sentido dos ideais, passou a lucrar com eles.

É assim que Bianchi interpreta as indenizações pagas pelo Estado a presos e torturados pela ditadura. Uma das personagens recebe R$ 500 mil como reparação por uma noite no cárcere do regime militar. “Ela apanhou bastante”, garante uma amiga. Ao que outro personagem retruca: “Não sabe a diferença entre exílio e intercâmbio”. Um ex-militante virou senador (Sérgio Mamberti), outro ganha rios de dinheiro preparando dossiês contra adversários (Renato Borghi), e por aí vai.

O personagem principal é Leandro (Fernando Alves Pinto), filho de um cineasta maldito desaparecido (Paulo César Pereio) e de uma ex-militante de esquerda (Clarice Abujamra), que sobrevive à custa de uma ONG de direitos humanos. Como costuma acontecer nos filmes de Bianchi, ninguém vale um caracol e os personagens reduzem-se a estereótipos destinados a ilustrar pontos de vista do diretor. O único com alguma espessura existencial é Leandro, que tenta encontrar rastros do pai. O curioso é que Leandro leva adiante um mestrado sobre as organizações de esquerda dos tempos da luta armada, mas se debate com a tensão entre o polo materno (esquerda tradicional) e o paterno (o desbunde, um vago anarquismo desiludido).

Disparando a esmo, o filme encaixa alguns tiros. Por exemplo, acerta ao ferir a autocomplacência da antiga militância, incapaz de reciclar ideias e adaptá-las ao mundo contemporâneo, o que é uma das tragédias do pensamento de esquerda, jogado contra as cordas e sem capacidade aparente de reação. Fosse por aí, talvez tivéssemos um grande filme.

No entanto, ao amesquinhar a discussão e atribuir os desvios a certa falha de caráter nacional, Jogo das Decapitações perde o rumo e envereda pela trilha moralista que caracteriza boa parte da obra do cineasta (uma exceção é o ótimo Os Inquilinos. Fecha-se naquela posição da autoconsciência ultrajada em que ninguém vale nada e, desse caos moral, salvam-se apenas os que têm a obsessão de denunciar. Mesmo que essa denúncia seja seletiva e poupe, no fundo, quem de fato manda no mundo.

A crítica, embora ácida, fica na superfície. Comporta-se como uma espécie de black bloc cinematográfico e, como os garotos mascarados nas ruas, mal provoca cócegas nas instâncias reais de poder. Com ternura zero e mau humor militante, é testemunho de mal-estar e irritação, e pouco mais que isso.

Seria tolice dizer que o filme é de direita. Mas é certo que a direita vai adorá-lo.