O cangaço e a política brasileira em ‘Zé de Julião’, filme de Hermano Penna
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O cangaço e a política brasileira em ‘Zé de Julião’, filme de Hermano Penna

Luiz Zanin Oricchio

11 Outubro 2016 | 17h20

Hermano Penna filmando a História

Hermano Penna filmando a História

Um esboço rápido da vida social e política brasileira no século 20 passa pelas entrelinhas deste interessante documentário – Zé de Julião, Muito Além do Cangaço. Seu diretor é Hermano Penna, o mesmo de Sargento Getúlio, um dos grandes filmes do cinema brasileiro com o personagem criado por João Ubaldo Ribeiro interpretado por Lima Duarte.

As coisas do sertão interessam ao cearense Hermano Penna, há muito morador de São Paulo. É o caso desta figura marcante de Zé de Julião, remanescente do ciclo do cangaço, que escapou à matança das Volantes e reciclou-se. Tornou-se político e quase chegou a ser eleito prefeito de sua cidade. Mas se escapou ao chumbo dos matadores de cangaceiros, não se livrou das armadilhas da política oficial e terminou assassinado, num crime sem solução.

O doc tem outro lado interessante. Hermano trata de forma documental um personagem já utilizado por ele de forma ficcional em Aos Ventos que Virão, longa de 2014. Aprofundou a pesquisa e concluiu que o personagem Zé de Julião valia um filme só para si.


Uma história e tanto, de fato. José Francisco de Nascimento era filho de um latifundiário de Sergipe chamado Julião. Daí o apelido – Zé de Julião. Aventureiro, acaba entrando para o cangaço e sobrevivendo ao massacre de Angicos, que dizima o bando de Lampião. Sua companheira, Enedina, morre na chacina. Zé foge para o Rio, refaz a vida e transforma-se em pequeno empreiteiro de obras. Volta mais tarde a Sergipe, tentando reaver as terras deixadas pelo pai e entra para a política, tornando-se chefe do PSD da região. Popular, candidata-se a prefeito de Poço Redondo, mas perde por uma manobra do adversário na apuração. Volta para o Rio e, de lá, parte para o Planalto Central, onde participa da construção de Brasília.

Na segunda tentativa de eleição, torna-se mais radical. Revolta-se com a manipulação eleitoral da antiga UDN (que deixou fundas raízes na política brasileira) e, no dia da eleição, invade Poço Redondo com seus homens, rouba e põe fogo nas urnas. Perseguido, acaba assassinado em 1961, num crime ainda envolto em mistério.

É uma saga e tanto. Tem o mérito de colocar a nu as práticas da política brasileira, de sua corrupção, do arranjo de bastidores entre poderosos, dos atos escusos e maracutaias que vão da esperteza sutil à violência mais desbragada. Tal é a democracia brasileira e vê-la, nos traços de uma trajetória tão singular, nos serve de incômodo espelho neste momento da República.