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O aprendizado da modéstia

Luiz Zanin Oricchio

31 Julho 2007 | 21h12

Semana passada escrevi que o fato de Corinthians e Flamengo ocuparem a parte de baixo da tabela era sintoma de que as coisas não andavam bem no futebol brasileiro. Logo recebi algumas mensagens me acusando de pessimista, ou de corintiano ou rubro-negro enrustido. Essas mensagens diziam que, para a parte da torcida que representavam, o campeonato ia muito bem, obrigado.

E, de fato, encontro aqui mesmo ao meu lado são-paulinos vestindo orgulhosamente a camisa do time. Imagino que botafoguenses, mesmo que ressabiados com a derrota diante do Cruzeiro, ainda mantenham o otimismo e moral elevado. Isso para não falar dos gremistas, que perderam a Libertadores mas não o rebolado (com todo o respeito, tchê!) e ocupam a terceira posição na tabela.

E da mesma forma devem estar pensando vascaínos e cruzeirenses. Mesmo os palestrinos vêem um time esforçado em campo, com jogadores chegando junto, acreditando em todas , colhendo os frutos da dedicação pessoal dos atletas e da aplicação tática do conjunto. Raça não é tudo, mas é alguma coisa. Em parte graças a ela, o Palmeiras pôde arrancar dois empates em jogos considerados perdidos, contra o Santos e contra o Juventude. Sem falar naquela virada histórica contra o Vasco.

Quer dizer que vai tudo bem no ex-país do futebol? Nada disso, e nem vale a pena pensar nos sentimentos da gente que freqüenta a parte de baixo da tabela. Menos ainda lembrar que o clássico das duas maiores torcidas do País levou pouco mais de 5 mil espectadores ao Morumbi. Culpa do frio? Nada, já vi aquele estádio com 20 vezes mais gente mesmo sob chuva torrencial. Por que as pessoas não foram? Ora, porque as expectativas contam muito nessa hora. Quando o Corinthians começou embalado, com aquele time de meninos, tinha o apoio da torcida. Essa impressão inicial foi se desfazendo, veio a crise política, e tudo desandou. Daí as arquibancadas vazias.

Já escrevi aqui várias vezes que o fundamental é a qualidade do futebol apresentado, um nível técnico que nos habilitou a cinco títulos mundiais e nos deixou mal acostumados. Quer dizer, bem acostumados a duelos de grandes craques, belas jogadas coletivas, dribles, gols fantásticos, etc. A torcida já relativizou essa exigência. Não temos mais a mesma qualidade em campo, por motivos que seria ocioso recordar já que todos nós os conhecemos bem.

O que resta, então? O desempenho dos nossos times na tabela e o valor da aplicação individual e tática em um futebol tecnicamente fraco. Valem a vontade de vencer, a emoção, o suor e a fibra. Não nos iludimos nem mesmo com a devoção do jogador pela camisa, porque sabemos que ela é transitória e só existe até a próxima oportunidade de transferência para a Europa, a Turquia, os Emirados Árabes, o Japão, onde for que se acene com um punhado de divisas. Mas podemos exigir que honrem a camisa pelo menos enquanto a vestirem.

Assim, mesmo aqueles que têm a memória dos grandes times do passado vão aprendendo a rebaixar expectativas e aproveitar o que sobrou. A boa posição do time na tabela parece suficiente para se afirmar que tudo vai bem com o futebol brasileiro. Se vemos dedicação em campo, perdoamos a técnica deficiente. Se a bola bate na canela e entra, o beque fura, ou é o próprio adversário quem marca contra…bem sempre são uns pontinhos a mais na contabilidade, não é? Estamos aprendendo a ser modestos.

(Estadão, Esportes, Coluna Boleiros, 31/7/07)