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O Anjo da História

Daiane Oliveira

30 novembro 2008 | 14:10

anjo

Minha mulher, a jornalista Maria do Rosário Caetano, notou que, no intervalo de poucas semanas, duas vezes ouvimos menções a um texto famoso de Walter Benjamin, inspirado num quadro de Paul Klee chamado Angelus Novus. A primeira foi num debate que moderei durante a Mostra de Cinema de São Paulo com o cineasta francês Nicolas Klotz (de A Questão Humana). A segunda foi através do documentarista Geraldo Sarno, quando debatia seu filme Tudo Isto me Parece um Sonho durante o recém-encerrado Festival de Brasília.

James Joyce referia-se à história como pesadelo do qual queria despertar. Essa imagem está em Benjamin, em sua interpretação do anjo de Klee. E passa por cineastas contemporâneos,em suas reflexões sobre o curso dos acontecimentos, que lhes (nos) parece caótico.

A História como pesadelo.

Eis as palavras com as quais Benjamin abre o texto:

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus.

Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente.

Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas.

O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado.

Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.

Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las.

Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.”

Walter Benjamin, “Obras Escolhidas”, tradução: Sérgio Paulo Rouanet, 1994 – 7.ed. Editora Brasiliense. p.226.