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Nos tempos da pátria de chuteiras

Luiz Zanin Oricchio

26 Junho 2007 | 18h26

Amanhã o Brasil começa sua participação na Copa América, a mais antiga competição de seleções do mundo, com primeira edição realizada em 1916. E daí? Daí que a expectativa parece tão pífia como se o Brasil estivesse prestes a disputar um amistoso contra o badalado escrete das Ilhas Fiji.

E, no entanto…nem sempre foi assim. O Campeonato Sul-Americano, atual Copa América, já foi muito importante. No de 1919, realizado no Rio e vencido pelo Brasil, os jogadores foram homenageados como heróis da pátria, em particular um deles, o mulato Arthur Friedenreich, exceção racial em esporte ainda praticado por brancos da elite. Friedenreich marcou o gol do título, contra o Uruguai. Dizem os cronistas que a vitória brasileira paralisou a antiga capital federal, toda ela tomada de fervor cívico.

Muitos anos depois, Nelson Rodrigues inventou a expressão que dá título a esta coluna. Para Nelson, a seleção era a ‘pátria de chuteiras’, o que lhe valeu muita crítica. Em especial durante o governo militar, quando símbolos como hino, bandeira, as cores verde e amarela eram associados à ditadura.

Hoje, a ‘pátria de chuteiras’ é menosprezada por outros motivos. Dizem que no mundo globalizado a própria idéia de nação tende a se enfraquecer. O futebol seria o exemplo mais gritante da globalização. Os jogadores saem cedo e espalham-se pelo mundo. Mantêm pouco contato com seus países de origem e alguns já falam a língua materna com sotaque. Logo precisaremos de intérpretes nas entrevistas coletivas para auxílio de jornalistas monoglotas.

Pois bem, o que seriam essas seleções multinacionais como as de hoje? Qualquer coisa, menos uma ‘pátria de chuteiras’. A idéia por detrás dessa expressão antiquada é que determinadas pessoas, os jogadores que formam o time, funcionavam como representantes desse país. Jogavam por nós. Saíam do seio do povo e iam para terras distantes combater em nome desse povo. Voltavam, quando vitoriosos, cobertos de glórias. O futebol entre nações é uma guerra simbólica. Ou era?

Toda essa construção épica ruiu, ou pelo menos apresenta rachaduras de alto a baixo, embora a cada vez que penso nos Estados Unidos começo a duvidar de que o nacionalismo esteja de fato em baixa. Em todo caso, em ambientes ‘in’ não se fala mais em pátria e, neles, nacionalismo é papo de gente como Hugo Chávez ou Evo Morales.

Então vamos combinar assim: a seleção já não é a pátria de chuteiras, se é que algum dia o foi. Mas, não sendo mais a pátria de chuteiras, o que será uma seleção, e para o que ela serve, se é que serve para alguma coisa? Respostas à coluna.

SOBROU O TORCEDOR

Outro dia peguei um vôo da Ponte Aérea, indo de São Paulo para o Rio. Sentei no corredor. Portas do avião quase fechando, entra um homem esbaforido. Executivo, maleta de couro bom, terno, gravata, meia-idade, calvo. Dá uma olhada furtiva na aeromoça, tira o celular do bolso e faz uma última chamada. Pensei: vai checar se está tudo ok com o negócio que acaba de fechar. Mas não. Cheio de angústia, pergunta, baixinho: como é que está o jogo, hein? Devo esclarecer. Naquele exato momento jogavam no Maracanã Botafogo e Vasco. Recebida a informação, o meu vizinho faz cara de alívio. Desliga o telefone e encosta a cabeça na poltrona. Dormiu antes de o avião decolar. Enquanto houver o torcedor, haverá vida no futebol.

(Estadão, Caderno de Esportes, 26/6/07)