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No meio do caminho havia uma Pedra do Reino

Luiz Zanin Oricchio

13 Junho 2007 | 16h21

Desculpem o jogo de palavras meio infame, que mistura o verso de Drummond com o título da obra-prima de Ariano Suassuna, Romance d’A Pedra do Reino, mas não pude resistir à tentação. Como você deve saber, o romance, um catatau de 755 páginas na edição recente da José Olympio, foi adaptado para uma microssérie da Globo. O primeiro capítulo foi ao ar ontem à noite e, fiquei sabendo, não agradou muito ao distinto público. Apenas 12% de ibope, com a Globo ficando em terceiro lugar no horário. Na sua frente, a novela da Record Vidas Opostas, e o filme Lara Croft, no SBT. Hoje, deve ir ainda mais ao fundo, pois o segundo capítulo será exibido depois de Boca Júniors x Grêmio, ou seja, lá pela meia-noite.

Mas o problema de A Pedra do Reino não parece estar apenas no horário ingrato de exibição. A narrativa parece avançada demais para o espectador de TV. Não há nenhuma linearidade na maneira de apresentar a história, ou mesmo os personagens. Visualmente, é deslumbrante, e incorpora sem pudor os elementos armoriais propostos por Suassuna, a crônica de época, o memorialismo, os estandartes, os folhetos, a música de Antonio Madureira, o sebastianismo, atores maravilhosos da Paraíba, como Soia Lira, Everaldo Pontes e Luiz Carlos Vasconcelos. Há momentos deslumbrantes, como a caça à onça, e a pontuação musical não poderia ser mais adequada. Mas, do ponto de vista narrativo, A Pedra do Reino seria uma ousadia até mesmo para o cinema, e o de circuito de arte.

O desafio do diretor Luiz Fernando Carvalho será, nos próximos capítulos, juntar um pouco mais as pontas da história para aproximar o público da TV de sua dimensão narrativa. Caso contrário, corre o risco de afastá-lo de vez.