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Não por Acaso

Luiz Zanin Oricchio

09 Junho 2007 | 11h57

Amigos, um texto sobre o filme Não por Acaso, de Phillipe Barcinski, que estreou na quinta-feira:

Talvez em algum momento o diretor Philippe Barcinski tenha sentido medo de estar fazendo um filme “intelectual” demais. Filme de orçamento grande, com artistas famosos e, portanto, sujeito a responsabilidades comerciais. Isto numa época em que o antiintelectualismo atingiu níveis nunca dantes cogitados. Tudo que possa cheirar a algum tipo de esforço mental, ou, pior, alguma profundidade de qualquer espécie já sendo descartado de saída, pelo público e também por boa parte da crítica. O que se espera do cinema. Hora e meia ou duas horas de entretenimento e “emoções”, esse sentimento abstrato.

Enfim, talvez consciente desse perigo, Barcinski (e equipe, pois cinema é obra de muita gente, embora não necessariamente obra coletiva) resolveu atenuar como podia suas idéias iniciais e exorcizar o produto final da pecha infame de “filme-cabeça”, o pior dos venenos de bilheteria que se possa imaginar.

Dessa solução de compromisso entre uma proposta autoral e expectativas comerciais saiu um bonito filme. Como o próprio Barcinski andou falando, um trabalho entre a razão e a emoção, um filme que se pode definir como “em camadas”. O que isso quer dizer? Que pode ser visto numa camada mais imediata, a da primeira leitura e, nesse caso, será composto por duas histórias paralelas e independentes. Uma fala de um caso de amor, encerrado de maneira trágica, e das dificuldades do sobrevivente em reatar sua vida amorosa. O outro, de um pai, afastado da filha, que terá de aprender a conviver com uma garota que não viu crescer. O quadro, sempre muito ativo e presente, em que acontecem essas histórias, é a cidade de São Paulo.

Nessa cidade, magnificamente fotografada por Pedro Farkas, Leonardo Medeiros faz o engenheiro de tráfego que, debruçado em seu computador, tenta colocar um pouco de ordem na caótica circulação de veículos em São Paulo. Rodrigo Santoro interpreta o construtor de mesas de sinuca e jogador, que planeja “na prancheta” cada uma de suas jogadas nesse esporte que consagrou Carne Frita e Rui Chapéu.

Esse primeiro longa de Barcinski aproxima universos em geral muito distantes. Ao refletir sobre o antigo tema filosófico do acaso e da necessidade, ele dialoga com um engenheiro de trânsito que usa modelos matemáticos e com um jogador de sinuca, que bola as seqüências de jogadas em uma cadernetinha de bolso. O mundo técnico mistura-se com o universo popular da sinuca, ambos sujeitos às mesmas contingências. Faz entrar em cena também uma operadora de bolsa de futuros (Letícia Sabatella), ou seja, alguém que mexe também com um universo probabilístico.

Tanto o engenheiro como o jogador de sinuca e a operadora de bolsa procuram imaginar um “ponto futuro”, a partir do qual possam intervir no presente. O fluxo de trânsito num determinado dia e região; a posição da bola branca depois de completada a jogada; a oscilação de preços de uma determinada mercadoria. São, de fato, todos eles operadores de futuro.
Todos somos, em certa medida. E não nos damos conta de que na rede de causalidade que traça nossos dias, o acaso entra sem pedir licença, intervém e passa a determinar o que será o futuro. O planejamento é uma necessidade, mas em certa medida está sempre voltado para o fracasso.

Com tal tema “intelectual”, era previsível que Barcinski tentasse aproximar o filme do espectador médio, mais arredio a raciocínios em salas de cinema. Afinal, trata-se de um produto a ser lançado por uma major, a Fox, co-produzido pela O2 e pela Globo Filmes. Essa gente não rasga dinheiro. E assim, as linhas mais reflexivas esmaecem um pouco ao longo do tempo, a música entra para “esquentar” uma trama que alguns poderiam julgar fria, e um certo apaziguamento final amortece os pontos mais inquietantes do projeto.