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Na expectativa da premiação do Cine Ceará

Luiz Zanin Oricchio

08 Junho 2007 | 16h34

FORTALEZA – Com a exibição de De Bares, longa-metragem espanhol de Mario Iglesias, completa-se o panorama cinematográfico proposto pelo 17º Cine Ceará, o segundo em versão ibero-americana. De Bares não se parece em nada com aquilo que se espera de um filme espanhol típico; nenhuma influência parece ter tido Iglesias dos maiores realizadores do país, Almodóvar e Saura, e evita “espanholices”, quer dizer, tiques regionais. A Espanha que lá aparece é a do diálogo entre o regional e o universal. Em termos de linguagem cinematográfica, Iglesias também trilha caminho próprio.

A proposta soa bem original. Há um bar, cujas paredes são forradas de fotografias. Um barman simpático, disposto a conversar sobre cada uma delas, acumuladas ao longo de 40 anos no estabelecimento. Olhando para aqueles personagens imobilizados nas imagens, o cliente passa a imaginar as histórias que viveram. De Bares transforma-se assim em filme de episódios, ligados pelas fotos na parede. E termina com um epílogo “surrealista”, poético e surpreendente, como era sua proposta. Não deixa de ser interessante.

A linguagem adotada também não é usual, mesmo porque às vezes muito incômoda para os espectadores. Houve gente que se queixou de dor de cabeça na platéia do Cine São Luiz, mal-estar que teria sido provocado por uma câmera permanentemente instável, sempre na mão, sem eixo fixo de definição em quase nenhum dos planos. Certo, sente-se que a instabilidade da imagem propõe incorporar na linguagem a precariedade das vidas retratadas. Mas não deixa de haver certo exagero, ou radicalização, algo que no fundo perturba a possibilidade de comunicação do filme.

E quais são essas histórias evocadas pelas fotos? No prólogo, uma mulher que havia trocado olhares com um homem num bar (sempre, nos bares da vida) se declara apaixonada, não se importando em fazer essa declaração na frente da esposa do sujeito. Em nova história evocada por outra fotografia, um homem busca drogas para satisfazer o vício de ninguém menos que sua velha mãe, que mal o reconhece. Noutra, o marido, em uma conversa casual, descobre que sua esposa fora aquela coleguinha de colégio que o atormentava e tornava sua vida impossível quando era criança.

Com esse filme tão original quanto desigual, completa-se o quadro que será apresentado aos jurados para a premiação. O Brasil apresentou dois bons concorrentes, Querô, de Carlos Cortez, e Patativa do Assaré, Ave Poesia, de Rosemberg Cariry. Num a infância desassistida e marginal do universo de Plínio Marcos. Noutro, o retrato amoroso do grande poeta e cantador sertanejo. Assisti-los foi muito agradável. Patativa foi o maior sucesso de público do festival.

Talvez Body Rice, do português Hugo Vieira da Silva, tenha sido o título mais ousado, com sua rarefação de linguagem, com planos longos e silenciosos, ao abordar a colônia de recuperação de jovens alemães no Alentejo, em Portugal. Muitos o acharam monótono, mas há que se ir além da primeira aparência de uma obra, até por uma questão de respeito à inteligência.

Las Cruzes vale pelo empenho de ser uma rara produção guatemalteca, sobre a guerra civil no país, com a população espremida entre a guerrilha e o exército como costuma acontecer. A estética, algo televisiva, respira em lampejos de criatividade quando apresenta o exército invasor sob a forma de sombras. Mas é pouco para transformá-lo em desafio interessante para o espectador.

Mariposa Negra, de Francisco Lombardi, fala da corrupção peruana na fase de Fujimori e Montesinos através de uma linguagem de thriller que, apesar de correta, não convence por completo. Ainda mais quando nos lembramos de outras obras desse diretor muito experiente, bem mais ousadas e complexas, como Boca de Lobo e Caídos del Cielo. Mariposa parece uma involução.

O argentino Chile 672 (trata-se de um endereço em Buenos Aires) é interessante pela mescla de histórias de uma classe média em crise vivendo em condomínio algo decadente. Mas era lícito esperar mais de uma cinematografia tão forte quanto a atual do país vizinho.

O mesmo se pode dizer de La Edad de la Peseta, do cubano Pavel Giroud. Não é mau filme, mas com sua visão edulcorada da passagem à adolescência de um personagem (que coincide com a revolução de Castro), nos faz suspirar por Tomás Gutiérrez Alea (de Memórias do Subdesenvolvimento e Morango e Chocolate) ou por seu sucessor, Fernando Pérez (de Suíte Havana). No encerramento do festival, aliás, será exibido fora de concurso o novo filme de Perez, Madrigal, que desperta as maiores expectativas entre aficcionados de um cinema cubano que já foi grande e hoje se encontra em crise.

Entre os 16 curtas apresentados, destacam-se Câmara Viajante, de Joe Pimentel (CE), O Espírito d’O Pão, de Marcley de Aquino (CE) e Vida Maria, de Márcio Ramos (CE). Quer dizer, o Ceará apresentou boa safra. De todos, o melhor, no que parece uma rara concordância entre público e crítica, é a animação Vida Maria, que em linguagem poética e de grande beleza (embora triste) fala do ciclo de ferro que aprisiona as mulheres sertanejas.