Mostra 2017: o outro lado da guerrilha do Araguaia & outros filmes
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Mostra 2017: o outro lado da guerrilha do Araguaia & outros filmes

Em 'Soldados do Araguaia', Belisário Franca conta a história da guerrilha (1967-1974) pelas vozes de soldados locais, convocados compulsoriamente pelo Exército para lutar contra os guerrilheiros

Luiz Zanin Oricchio

25 Outubro 2017 | 12h03

Talvez tenhamos visto ontem o mais impactante filme brasileiro da Mostra. Em Soldados do Araguaia, Belisário Franca conta a história da guerrilha (1967-1974) pelas vozes de soldados locais, convocados compulsoriamente pelo Exército para lutar contra os guerrilheiros.

São depoimentos muito fortes. Contam do treinamento feito à base de violência, privações e torturas – muito semelhantes às que eram infligidas aos militantes de esquerda durante a ditadura militar. O objetivo era embrutecer os soldados para que não tivessem qualquer rasgo de piedade diante dos inimigos.

Muitos desses ex-soldados se queixam de traumas e padecimentos físicos e psíquicos que perduram até hoje. A insônia é comum. Imagens se repetem diante de seus olhos, como aquele que vê todos os dias diante de si a imagem da guerrilheira presa sendo levada no helicóptero para sua viagem final.

O filme não se baseia apenas em depoimentos. Muito bom do ponto de vista cinematográfico, exibe imagens e sons da mata em que a luta se travou. Isso faz de Soldados do Araguaia também uma experiência sensorial. Os depoimentos, em si, são tomados sob uma luz neutra em ambiente despojado. O filme foi muito aplaudido no final da sessão. No debate, seu diretor, que tem em seu currículo o ótimo Menino 23, disse que a sociedade brasileira havia optado pelo silêncio em torno da sua ditadura militar. “Talvez as consequências desse ato de negação possam hoje ser vistas nas violações de direitos humanos”.

Sem dúvida, com raras exceções, a política brasileira em torno dos crimes da ditadura  tem sido de silêncio e ocultamento. “Deve-se olhar para frente”, é o que se diz quem defende o apagamento da História. Esquecendo-se de que, sem a consciência do passado não se constrói qualquer futuro decente.

Outros filmes:

Entre outros que vi ontem, destaco: 

Django, de Etienne Comar, não é uma cinebio convencional do grande guitarrista cigano, mas limita-se a um trecho de sua vida. Django Reinhardt (Reda Kateb) vive o auge de sua fama tocando nos cabarés de Pigalle, na Paris ocupada pelos nazistas. Enquanto isso, seu povo está sendo perseguido e os alemães decidem que ele deve fazer um concerto em Berlim, limitando seu repertório às exigências arianas.

A história é romanceada (baseada no livro Folles de Django, de Alexis Salatko, e o filme, muito bem construído. Reza Kateb faz um Django para lá de verossímil, inclusive nos movimentos de mãos ao tocar seu violão incomparável. Reinhardt, como se sabe, havia perdido o movimento de dois dedos da mão esquerda em um incêndio. Teve de se readaptar e voltou a tocar melhor do que nunca, valendo-se apenas de dois dedos da mão esquerda e a palheta na direita. Foi um dos grandes fenômenos do jazz europeu, talvez o maior, que ele próprio ajudou a criar, mesclando a técnica (e a alma) cigana às melodias e harmonias dos negros norte-americanos.

O preciosismo com que o filme é tratado inclui a parte musical, executado pelo Rosenberg Trio, holandeses que se consideram herdeiros diretos da arte de Django. Alguns caminhos novelescos e certa solenidade, que por certo não estava entre os traços de personalidade do artista, enfraquecem o filme. No entanto, tem muito mais qualidades que defeitos. E não há de decepcionar os fãs de Django, a não ser, talvez, por seu desfecho clássico demais.  

Em que Tempo Vivemos? Muito bom também esse filme de episódios reunindo os países Brics – Brasil, Rússia, Índia, África do Sul e China. O primeiro episódio, dirigido por Walter Salles, enfoca a tragédia de Mariana, causada pela empresa Samarco, que matou um rio e jogou cidades mineiras literalmente num mar de lama. Um homem desaparece durante o acidente e seu filho não nunca de acreditar que vai reencontrá-lo. Os outros episódios de destaque são o indiano, com a história do senhor de idade que encontra na amizade de um menino de rua a motivação para seguir vivendo. O russo é muito forte, com a relação terminal de um casal nos confins da Sibéria. E o chinês, dirigido pelo grande Jia Zhang-ke, também fala de um casal, este tentado a ter um segundo filho quando isso passa a ser permitido pela lei. Da simplicidade ele atinge o estado de graça, fiapo de ternura num mundo hostil.

 

Sessões:

Soldados do Araguaia

Dia 26/1017:40 – CINEARTE 2

Dia 30/1013:30 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 5

Django

Dia 27/1017:40 – CINE CAIXA BELAS ARTES SALA 3

Dia 28/1019:00 – SESC BELENZINHO

Dia 29/1021:00 – PLAYARTE MARABÁ – SALA 3

Em que Tempo Vivemos?

Dia 29/1017:50 – CINESALA

Dia 30/1022:00 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1

Dia 31/1022:00 – CINEARTE 1

Dia 01/1117:00 – CINESESC

A cobertura inteira da Mostra você encontra no blog: http://cultura.estadao.com.br/blogs/luiz-zanin/