Mostra 2016. Se esse apartamento falasse…
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Mostra 2016. Se esse apartamento falasse…

Com 'O Apartamento', um dos melhores filmes da Mostra, o iraniano Asghar Farhadi, vencedor do Oscar, discute vingança, ética e o papel da arte na consciência humana

Luiz Zanin Oricchio

24 Outubro 2016 | 16h02

apartamento

Tenho visto muita coisa na Mostra (sem a fissura de maratonista). Claro, há os Bellocchio, os Wajda, os Kieslowski. Os consagrados. De novidades, entra na lista dos imperdíveis O Apartamento, do iraniano Asghar Farhadi. Bom, não se trata uma novidade: o cara ganhou um Oscar com A Separação.

O Apartamento é mais um exemplo de carpintaria de roteiro bem realizado na mise-en-scène.

Na história, um dramaturgo, Emad, tem de se mudar às pressas com a mulher, Rana, quando o edifício onde moram ameaça ruir. Eles arranjam um apartamento provisório, onde antes morava uma prostituta, descrita com todos os eufemismos exigidos na sociedade iraniana. “Mulher de muitos encontros”, etc.


Deve-se saber que, em paralelo, assistimos à montagem de uma peça muito especial, dirigida por Emad: trata-se nada menos que de A Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller. Rana é atriz na peça.  

Ocorre um incidente grave quando um antigo cliente vai procurar a prostituta pensando encontrá-la no antigo endereço. Só que quem está lá no momento é a mulher do dramaturgo, que abre a porta pensando ser o marido. Há uma agressão, ferimentos pouco graves mas uma dúvida paira: até onde foi o agressor. O que houve afinal aquele dia? A dúvida deixa Emad alucinado. Tenta, a todo custo, descobrir quem é o cliente que entrou na casa por engano.

O filme é, digamos assim, um estudo sobre a vingança. E não apenas. A força do ódio é que empresta energia a Emad para desestruturar-se enquanto procura pelo homem que violou seu lar e, talvez, não apenas a moradia.

Mas, há um detalhe e, como se diz, Deus mora nos detalhes (em outra versão, quem mora nos detalhes é o diabo). A Morte do Caixeiro Viajante, como se sabe, é um texto sobre a humilhação. O vendedor Willy Loman é destruído pela humilhação progressiva, diante de um mundo que já não é mais o seu. Há um sutil enlace entre quem encena esse texto, em território iraniano, e seu desejo de vingar-se e ferir o agressor.

Abro aqui um parêntese com um caso que nem verdadeiro eu sei se é. Mas que é lindo. Conta-se que, no tempo da ditadura, a atriz Cacilda Becker foi conduzida a um desses infames departamentos policiais. Sob ameaças, exigiram-lhe nomes, pediram-lhe que traísse. Ela teria respondido ao delegado que, tendo interpretado Antígona no teatro, jamais poderia se prestar a esse papel. A ética imperiosa da Grécia Antiga havia moldado seu caráter, a partir do dilema ancestral: a lei da família, ou se se quiser, da piedade, prevalece sobre a lei injusta do Estado, a lei de Creonte.

Fecho aqui o parêntese, porque em Farhadi trata-se do contrário. De como a luminosa peça de Miller não produz qualquer efeito sobre aquele que a dirige em um teatro. Dessa indiferença à arte, nasce a tragédia. E, se quisermos insistir no paralelismo, é a mulher de Emad, Rana, quem assume o papel de Antígona nesta tragédia moderna.

Dia 24/10 21:30 – Cinemark Cidade São Paulo

Dia 30/10 19:50 – Cinesala

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