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Morreu Michelangelo Antonioni (1912-2007)

Luiz Zanin Oricchio

31 Julho 2007 | 09h06

Bem, deve haver uma estranha sincronicidade nisso tudo, pois ontem foi a vez de Bergman e hoje é anunciada a morte de outro grande mestre do cinema, o italiano Michelangelo Antonioni. Também com idade avançada, Antonioni morreu em Ferrara, com 94 anos. Havia muito estava doente e já não falava há anos, desde quando sofreu um acidente vascular cerebral. Conheci-o quando esteve no Brasil, participando do Festival de Gramado e acompanhando, com muita emoção, a projeção de uma de suas obras-primas, A Noite.

Revi Antonioni anos depois, no Festival de Veneza, quando apresentou seu último trabalho, um dos episódios do filme Eros. Estava já em cadeira de rodas e o filme, se não era comparável a um dos seus clássicos, mostrava por vezes o “toque” Antonioni, o que não é pouca coisa.
Antonioni, assim como Fellini e Visconti, veio da escola neo-realista, a mais fértil do cinema italiano dos anos 40-50. Mas, em seguida desenvolveu estilo e preocupações temáticas próprias. Assim como Bergman, tinha interesse pelas situação do homem em sociedade e, sobretudo, as complicadas relações do casal moderno.

Também como o mestre sueco, Antonioni tentou compreender a alma feminina, mesmo sabendo que tal tarefa é sempre destinada ao fracasso, como aliás já sabia o próprio Freud.

Foi chamado também de cineasta da incomunicabilidade, o que aceitou de bom grado durante muito tempo, mas depois acabou por entediá-lo, pois, como dizia, tentava desesperadamente se comunicar com seus filmes. No entanto, a relação difícil entre homem e mulher, e destes com o mundo, sempre esteve no centro de suas preocupações. É assim com a chamada trilogia da incomunicabilidade – A Noite, A Aventura, O Eclipse. Este último, para mim, é uma das maiores obras-primas do cinema em todos os tempos. Seu final, com a natureza e a cidade parando durante um eclipse solar é um dos mais desalentados – e estranhamente belos – que já se viram numa tela. Mesmo porque o senso de composição pictórica era um traço forte de Antonioni, que usava por vezes composições de quadros como as de De Chirico.

Muitos outros são seus filmes importantes, como o angustiado Deserto Vermelho, com Mônica Vitti, ou o formidável Passageiro: Profissão Repórter, que filmou com Jack Nicholson no papel principal. E que papel! Nicholson nunca fez nada melhor do que esse personagem que troca de identidade com outro e leva a farsa dessa segunda pele até as últimas conseqüências. O longo plano-seqüência final, entre a praça e o hotel, numa cidadezinha espanhola é considerado com justiça um dos mais belos do cinema.

Meus outros favoritos de Antonioni são Zabriskie Point, com seu final apocalíptico, e Blow Up – Depois daquele Beijo, livre adaptação do conto de Julio Cortazar, Las Babas Del Diablo. Nessa história de um crime que se resolve na ampliação de uma fotografia (daí o título em inglês), o que há na verdade é um trabalho sobre a função do olhar. Fala do homem perdido em uma sociedade que não lhe serve mais de abrigo, no qual ele é um estranho. Pouca gente, como Antonioni, percebeu a condição alienada do homem moderno em seu mundo.

Em 1980, Antonioni foi pioneiro do trabalho com vídeo em O Mistério de Oberwald. Em 1995, já doente, dirigiu com o auxílio de Wim Wenders seu último longa-metragem, Além das Nuvens. É o último que se vai do grande grupo de diretores que fizeram a Itália ter, entre os anos 60 e 70 o melhor cinema do mundo. Muito devemos a ele.