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Morreu Ingmar Bergman (1918-2007)

Luiz Zanin Oricchio

30 Julho 2007 | 09h01

Acabei de saber da morte de Ingmar Bergman, aos 89 anos. Morreu de causas desconhecidas, em sua casa, na ilha de Faro. Ok, morreu de velhice, de vida bem vivida. Muito vai se escrever agora sobre ele, que era um dos últimos mestres do cinema ainda em vida. Nesse primeiro momento, quero apenas registrar que um homem que nos deu filmes como Noites de Circo, O Sétimo Selo, Morangos Silvestres, Através de um Espelho, O Silêncio, Cenas de um Casamento, Persona (me recuso a usar o título brasileiro Quando Duas Mulheres Pecam), Gritos e Sussurros e Fanny & Alexander, ficará para sempre na história do cinema como um dos seus grandes.

Haverá mesmo quem sustente que foi o maior de todos, usando a sua arte para o mais radical mergulho na alma humana, naquilo que ela tem de tenebroso e de sublime. Bergman, muitas vezes trabalhando com seu fotógrafo favorito, Sven Nykvist, esculpia em luz e sombras as contradições humanas, em especial quando elas se defrontam com a experiência amorosa. Seus personagens são seres atormentados, em busca de algum sentido mais transcendente, ou da simples felicidade, vista por ele como impossibilidade radical em seu aspecto mais ingênuo.

Bergman fazia um cinema profundo mas não por acaso. Era um homem profundo, meditativo e, ao se tornar cineasta, foi em busca dos meios formais para expressar em luz e som essa profundidade. É a diferença em relação a quem dispõe apenas de meios técnicos mas não articula essa relação complexa com a existência. Cinema, qualquer arte, aliás, se faz primeiro na mente.

Em sua longa trajetória de mais de 60 anos dedicados a esta arte maltratada, Bergman refletiu sobre a os sofrimentos da infância, os dilemas da vida adulta, o medo da velhice; sobre os impasses do amor, a busca inútil da felicidade, a procura da paz íntima, o enigma da morte. Dizer que foi o cineasta dos relacionamentos amorosos é muito pouco. Procurava no amor aquilo que ele tem de trágico e ia além. Fez do cinema uma metafísica e procurou por o dedo em questões tão complexas que dificilmente são abordadas por uma arte que alguns dizem industrial. Seu legado ainda vai nos abastecer de problemas não resolvidos por algumas gerações de críticos e estudiosos do cinema.

Cabe ainda registrar que Bergman afirmou que se aposentava do cinema com Fanny e Alexander, em 1982. Voltou-se para o seu amado teatro, para seu adorado Strindberg, mas continuou escrevendo roteiros, eventualmente filmados por outros, inclusive por sua ex-mulher Liv Ullmann, que dele dirigiu Infiel, há pouco lançado em DVD.

Mas Bergman ainda voltou a dirigir. Seu último trabalho fica sendo Saraband, espécie de continuação de Cenas de um Casamento, com a mesma dupla de atores, Liv Ullman e Erland Josephson, que saiu aqui direto em DVD, sem passar pelo cinema, o que vale como um comentário à sensibilidade artística do nosso circuito exibidor.

Quem gosta de cinema para valer, tem de se perguntar agora qual ou quais são seus Bergmans favoritos. Eu fico entre Persona e Gritos e Sussurros – este último talvez o mais radical enfrentamento com a questão da morte já ensaiado pelo cinema. Mas guardo um lugar muito grande no coração cinéfilo para Morangos Silvestres, o longo caminho do frio dr. Isak Borg (Victor Sjöström) ao encontro consigo mesmo. É um dos filmes mais comoventes que conheço.