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Montaigne e o presidente

Luiz Zanin Oricchio

18 Junho 2007 | 15h26

A França de esquerda, ou centro-esquerda, tenta ainda digerir a eleição de Nicolas Sarkozy. A revista semanal Le Nouvel Observateur, por exemplo, dá uma capa com o título Sarkozy et l’Argent, investigando o relacionamento (próximo) do novo presidente com o vil metal.

Mas, mesmo nesse processo de digestão, com o desconforto que costumam causar certas dietas pesadas, uma revista francesa precisa cuidar de outros assuntos, mais agradáveis, por certo. Por exemplo, o mesmo número da Nouvel Obs. registra o lançamento de mais uma luxuosa edição dos Essais, de Michel de Montaigne, pela Pléiade. Quem assina o texto da revista é ninguém menos que o escritor Philippe Sollers.

Ele não deixa de fazer uma alusão, talvez saudosa, a outros tempos. Exuma o retrato oficial do socialista François Mitterrand, em 1981, que posa diante de sua biblioteca com um livro entreaberto nas mãos. Que livro é esse? Os Ensaios, claro.

Sollers lembra do falatório que essa foto causou na época. Por que Miterrand preferiu se deixar fotografar com um livro e não com a bandeira francesa ao fundo? Especula: talvez seja uma mensagem subliminar do humanista, aberto às controvérsias, já que não existe livro menos dogmático que esse de Montaigne. Outra hipótese: Mitterrand, vaidoso, deseja se apresentar ao povo francês como um intelectual, homem de cultura, um homem de livros. E que outro livro poderia significar com tanta ênfase o apreço pelo saber, mas também o gosto pela especulação e pelos duelos de argumentos que os Ensaios?

Estes aparecem agora na Pléiade, baseados na versão de 1595 estabelecida por Marie de Gournay. É um livro que tem atravessado gerações e feito a alegria de muita gente grande. Orson Welles o mantinha como obra de cabeceira e dizia não passar um único dia de sua vida sem ler pelo menos uma página do “meu Montaigne”, como o chamava. O diretor de Cidadão Kane o lia em francês, pelo puro prazer de saborear a língua, e o considerava o maior livro escrito pela mão humana.

Nietzsche considerava Montaigne a alma mais livre e vigorosa que já tinha existido. Ajuntava: “No meio da agitação do espírito da Reforma, ele encontrou repouso em si mesmo, um aprazível retiro interior, uma pausa para recuperar o fôlego – e foi desse modo que o compreendeu Shakespeare, seu melhor leitor.”

Sollers se permite uma doce recordação de infância, quando visitou, com a turma da escola, o castelo e a torre onde Montaigne escreveu sua obra, ao longo de anos de trabalho. Levou nove anos para redigir os dois primeiros livros que compõem os Ensaios. Foram publicados em 1580 e em 1588 quando aparece já o terceiro livro.

A vida de Montaigne é estranha, “esquizofrênica”, como a classifica Sollers. Montaigne é conselheiro no parlamento de sua cidade, Périguex, antes de se tornar prefeito. Viaja muito, percorrendo às vezes 10 ou 12 horas seguidas no lombo de um cavalo. Em Bordeaux, conhece Étienne de la Boétie (autor do também clássico Discurso sobre a Servidão Voluntária), que se tornará seu amigo para a vida, laço fraterno que se rompe com a morte prematura de La Boétie (1530-1563). Montaigne viaja, conversa, lê, participa da política, debate.

Mas o essencial é o livro a que se consagra. “O” livro, e não apenas um livro entre outros, porque Montaigne é, ele mesmo, essa obra. O autor se confunde com a obra, porque ele se constrói através do livro. O livro é ele, ou, como deseja Sollers, “seu corpo tornado livro, um livro nutrido de outros livros já que ler e escrever formam um mesmo tecido, sanguíneo e nervoso”.

Esse corpo tornado obra revela um ser paradoxal, como ele próprio se descreve, ao encontrar em si todas as contradições possíveis, segundo o humor do dia ou o ângulo do olhar adotado: “Taciturno ou calado, mentiroso ou sincero, sábio, ignorante e liberal, avaro e pródigo.” Montaigne descobre um mundo em si e nos outros. Suas conclusões (se existissem) não caberiam num sistema filosófico fechado. Os valores são relativos, mas não se pode fugir à ética, que implica escolhas a serem feitas. Essa conclusão leva ao humanismo e à tolerância. Mitterrand sabia o que estava fazendo ao se deixar fotografar com esse livro nas mãos.