Meu Irmão é Filho Único
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Meu Irmão é Filho Único

Luiz Zanin Oricchio

01 Agosto 2008 | 19h23

irmao

Entende-se o motivo da repercussão de Meu Irmão É Filho Único na Itália. Falando de dois irmãos tão unidos como separados como Accio (Elio Germano) e Manrico (Riccardo Scamarcio), o diretor Daniele Luchetti fala do país inteiro. Coloca, em ficção, algo que é da ordem do real em um país que há pouco tempo elegeu um governante de centro-esquerda como Romano Prodi, dando-lhe maioria tão precária que ele logo caiu, sendo substituído por Silvio Berlusconi, que mais uma vez conquistou o poder na península. Tudo é precário, tudo é provisório quando se tem essa divisão 50%-50%, que oscila de um lado a outro.

Para melhor focar o presente, Luchetti viaja ao passado, mas não ao mais remoto, como poderia ter feito, indo à matriz de tudo, o fascismo de Benito Mussolini. Não, os irmãos Accio e Manrico vivem entre os anos 60 e 70. Quando a guerra e a reconstrução já eram distantes mas não a ponto de terem sido varridas da memória italiana. E, nessa dissensão entre os “fratelli”, Luchetti conta um pouco da história recente da Itália. História que repete a sua estrutura mais profunda, a do “fascinante fascismo” (para usar a expressão de Susan Sontag), mas não à sua adesão incondicional. País partido.

O projeto de colocar essas contradições em cena poderia ter conduzido Luchetti a um filme frio, demonstrativo, de tese. Não é o caso. Os personagens têm vida própria, calor humano, são cheios de pulsões antagônicas que procuram gerir da maneira como podem. Se às vezes não se escapa a certo artificialismo cênico, tão comum em produções de época, a verdade é que Luchetti coloca em ação os sentimentos humanos, os desejos e as frustrações que fazem a autenticidade prevalecer, afinal de contas.

Dúbios em suas opções políticas, às vezes tão cômicos como trágicos, esses irmãos criam empatia com o espectador com suas trajetórias de vida. É de uma dubiedade política e existencial que se está falando, que vai das preferências sexuais à opção pelo uso da violência em matéria de política. E por que essas circunstâncias se amplificam quando desdobradas em dois irmãos? Porque colocar tudo em pólos opostos pode ser vantajoso do ponto de vista da dramaturgia.

Mas há outro detalhe. Em um país no qual a noção de família era e é ainda tão importante, trabalhar com irmãos pode representar um lucro adicional. Basta lembrar de um clássico como Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti, ou, mais recentemente, de Assim se Ria, de Gianni Amelio, ou A Melhor Juventude, de Marco Tullio Giordana – todos dramas que encontram no interior da família e suas lacerações um espelho ideal para as contradições do país.

Quer dizer: a passagem do interno para o externo que, de qualquer forma, se realiza mesmo assim na realidade – ninguém é uma ilha, e nem uma família é um arquipélago. Ela está à deriva nesse mar imenso que é a História dos homens. Bons diretores, como Luchetti mostra ser, sabem fazer a passagem do individual ao coletivo. E vice-versa.

(Caderno 2, 1/8/08)